Casamento
é sério! Aposto que, assim como eu, já ouviu essa frase uma centena de vezes
por aí. Mas eu discordo! Penso justamente o contrário: O casamento é a
instituição social mais engraçada que existe! E tenho como provar. Não acha
engraçado como duas pessoas, em certo momento de suas vidas,decidem viver
juntas e se dedicar uma à outra até que " a morte os separe".Mais
engraçado ainda é que essa decisão tão importante( e séria!), na maioria das
vezes,é inspirada no sentimento mais irracional,imprevisível e inexplicável de
todos: O amor. O casamento é um circo,leitor! Os cônjuges são dois
equilibristas que,com suas semelhanças e diferenças tentam, no dia a dia,
manter-se de pé em uma corda bamba chamada convivência. Confiar seus
segredos, medos,intimidade e desejos a outra pessoa não é fácil. Mas não é
porque não é fácil que precisa ser sério. Basta o casal ser uma boa dupla
de malabarista e não deixar a confiança cair e quebrar. Às vezes, também
são necessárias algumas acrobacias pois sempre haverá problemas a serem
transpostos. E pular pode ser divertido, sim!Por que não?Ah! E o que dizer
sobre a mágica?!Ainda não sei qual o segredo de duas pessoas dividirem uma só vida. Mas sabe qual o melhor papel que
a mulher e o homem podem assumir?É o do palhaço!Porque casamento não se
define pela assinatura de um papel ou por celebrações,mas pelo esforço diário
de fazer seu companheiro ou companheira sorrir. Agora pergunto: Já viu alguém
feliz sério?
--Acho que não ouvi direito. Eu vou casar contigo?
--Você ouviu muito bem,
Churumela.
Desde que havia voltado de
Bakía, não tivera um dia tão maluco. Primeiro, meus olhos brilharam sem nenhuma
explicação. Depois ganhei um anel com um pedido,ou melhor, intimação de casamento de um
cara que mal conhecia. Admito que fiquei envaidecida com a proposta de Gustavo,
afinal, ele é o cara mais desejado da escola. Mas casar? Não, não!
Casar, nãaaao!
--Não!--falei tentando tirar
o anel do dedo, mas não consegui meu intento.
--Você pos cola nesse anel?
Não consigo tirá-lo! Olha, Gustavo, tudo que aconteceu hoje não faz sentido pra
mim até agora. Inclusive esse seu pedido de casamento descabido, maluco e....
--Você fala
demais!--Interrompeu Gustavo sorrindo como se minha surpresa e todo meu alarde
fossem engraçados.
--Ah, disso eu sei! Não é a
primeira pessoa que me diz isso.--falei dando-lhe as costas.
Gustavo se colocou em minha
frente, segurou meu rosto com firmeza e me olhou com um desejo que...Ah!Sei lá!
Uhuuuu! Me causou arrepios.
--Vou te levar pra casa.
Está quase na hora de começar seu turno na lanchonete e não quero que chegue
atrasada. Fique com o anel! É seu! Quanto ao casamento... teremos tempo!
--Tempo?!?!-- Gritei ao
acordar da hipnose de seus olhos --- Acho que ainda não entendeu, Gustavo. Você é charmoso,inteligente, fofo,lindo,gostosão...
--Então?!
--Então que bom que você me interrompeu porque já estavam acabando meus adjetivos. Bem.. a questão é que sou apaixonada por um cara
orgulhoso e cabeça dura que vive muito longe de mim.
--Eu sei.--disse meu colega
de turma com segurança.
--Sabe?!--Perguntei
desconfiada.
--Quis dizer que sei pois só
pode ser essa a razão de você se esquivar tanto de mim! Vamos para o
carro,Churumela!
Não fiquei muito satisfeita
com a explicação,mas estava realmente atrasada e resolvi não estender a
conversa. Meu prédio não ficava longe da praia . Durante o caminho, não falamos
mais sobre casamento. Gustavo tentou puxar assunto, me lembrando da reunião de
grupo que teríamos em sua casa na noite do dia seguinte. Lendas! Tava sem
cabeça pra pesquisar sobre lendas. Não consegui disfarçar o sorriso quando
lembrei que Rafael adora me chamar de anta ou mula empacada quando insisto em
ser teimosa. "Churumela, a mula sem cabeça", certamente, ele faria
essa associação.
Assim que entrei no
apartamento, Xadrez me cumprimentou como é de praxe. Tomei um banho rápido,
coloquei meu uniforme e fui tomar minha
xícara de café em frente à TV. O
noticiário não trazia boas notícias : Animais e pessoas morrendo,vítimas
do calor e desidratação em várias partes do mundo.O calor estava insuportáve! Faltava água potável em muitos lugares e o
racionamento já era prática comum,inclusive na minha cidade. Estávamos na
primavera, mas parecia outono. Não havia folhas nem flores, apenas árvores e
rios secos. É verdade que o desmatamento, a ocupação desordenada do
espaço pelas cidades e a ambição desenfreada do homem, não respeitando os
limites da natureza tem provocado mudanças no clima no decorrer de dezenas de
anos mas, na última semana, as condições só pioraram. Os cientistas tentavam
explicar o fenômeno do clima, mas não havia consenso entre eles. Água se tornou
um bem valioso. Gastei metade de meu salário com botijões de água,protetor
solar e manteiga de cacau.
--Sei que temos culpa por
tudo que está acontecendo,mas algo me diz que há mais alguma coisa envolvida
nessa mudança tão brusca do clima. Era pra estarmos no inverno, com chuvas ,
ventos frios, chocolate quente. Você também não acha, Xadrez?
Xadrez pulou no meu colo e deu
umas lambidas no meu rosto, me fazendo derrubar a xícara de café no chão. Fui
até a cozinha ,pegar o material pra limpar a bagunça e quando voltei...
--O que está fazendo aqui?--Perguntei surpresa sem acreditar no que via.
--Será que tem um colchão velho aí pra mim?
-- Tem, sim! Mas aviso logo que ele é de Xadrez e tá mijado!
--Churumela,!!!
--Ah, Paulinha, vem logo aqui me dar um abraço!!
CONTINUA...