Escolhi a poltrona que ficava mais próxima da janela, onde eu podia
contemplar, no céu, a arte que havia pintado. A chuva insistia em borrar meu
quadro. Esforço vão! Talvez ela desse uma trégua se soubesse que as
estrelas azuis não eram de aquarela. Ou...talvez não.
Paulinha sentou-se ao lado do Sr. Astróbilo. A Princhi me olhava com a
ansiedade dos curiosos e o Saikó com a paciência daqueles que desenvolveram um
dos sentidos mais difíceis pra mim: ouvir. Respirei fundo e narrei tudo o que
aconteceu nos últimos dois dias sem colocar vírgulas. Falei sobre o brilho
inexplicável de meus olhos na aula da professora Cassandra, do anel de pedra
azul que ganhei de um amigo, da visita de Melina Marilyn, no Delícias da Carne,
do meu sonho com Dakan, dos três ladrões patetas e da estátua de gelo, da luz
azul que o anel emitiu ao céu quando entrei no mar, do sequestro dos meus
colegas de turma e,por último, do recado de fumaça na casa de Gustavo.
Ufaaaaa! Quando terminei, já não tinha mais fôlego, nem palavras e
saliva. Apenas dúvidas, medo e culpa.
Paulinha me ofereceu um copo d'água, enquanto o Sr. Astróbilo se dirigiu
a uma das prateleiras da estante próxima à lareira e retirou um livro grosso, de
capa dura e de aspecto velho e empoeirado.
Ele se acomodou novamente em sua poltrona e repousou os óculos redondos
em seus olhos cansados. Em seguida, passou as mãos no livro com o carinho de
quem acorda um filho, deixando mostrar a orquídea violeta desenhada em sua
capa.
--Gostaria de ouvir uma história, princesa?
--Claro que sim, Sr. Astróbilo.--Falei entusiasmada, sentando-me ao chão
perto de sua cadeira.
Paulinha imitou meu gesto.
Sr. Astróbilo abriu o livro, tateando com seus dedos pequenos e
enrugados os primeiros capítulos.
-- Muito bem, meninas! Então escutem com atenção a história que vou lhes
contar.
-- Achei que soubesse de todas as histórias de Bakía, Sr. Astróbilo. Por
que precisa desse livro?
--Ah, minha querida Lizka. Para velhos como eu, cuja memória é
escrita a grafite, a borracha do tempo não falha. Agora vejamos por onde posso
começar....
--Que tal por : Era uma vez ?
Sr. Astróbilo sorriu da minha sugestão.
--Como quiser, princesa! Era uma vez, há milhares de anos, os quatro reinos viviam em guerra. Arenos, Marenos,
Terrenos e Firenos disputaram entre si, durante séculos, o domínio sobre as
terras, riquezas e conhecimentos uns dos outros. Bakía não existia. Sentimentos
mesquinhos e egoístas dominavam o coração das pessoas. Mas um dia, as colinas
Criskas fizeram uma revelação às Salinas: no mês de setembro, no dia que
começasse a primavera e que uma estrela azul apontasse ao céu, nasceria uma
criança de olhos violetas, que fundaria um novo reino, do qual seria a guia
moral, chamado Bakía , que traria paz e harmonia às quatro Terras e cujo
reflexo, um dia ,atingiria por completo outros mundos mais grosseiros, como o
mundo Opaco, por exemplo. Essa criança teria todos os sentidos aguçados. Seria
capaz de ver o futuro e o passado, de ler os pensamentos mais escondidos, de
sentir o perfume das flores mais distantes, de escutar música onde para ouvidos
comuns só havia silêncio. Ela seria o espelho capaz de refletir o que havia de
melhor em cada pessoa.
--As
Salinas....nossa! Sinto saudades daquelas sete gêmeas
e também das colinas de cristal. Acho que quando voltar a Bakía...
--Shiii! Churumela, você quer ficar quieta e ouvir o resto da
história?--advertiu Paulinha me cutucando.
--Ops! Desculpe, Sr. Astróbilo! Mas então? O que aconteceu quando todos
souberam que nasceria uma criança de olho roxo, digo, violeta?
--Previsivelmente,
os grandes reis não ficaram alegres com a notícia e passaram a
vigiar todas as mulheres grávidas dentro de seus domínios. Muitas crianças
foram mortas pela simples dúvida quanto a cor de seus olhos.
--Que
horror!
--Sim, Paulinha! Foram tempos difíceis. Mas apesar de toda a vigilância e barbárie empregadas pelos Firenos,
Terrenos, Marenos e Arenos, duzentos anos depois da primeira profecia das
Salinas, uma mulher, esposa de um jardineiro, deu a luz a uma menina de olhos
violeta , batizada como Laila.
--De qual
reino pertenciam os pais da primeira Lizka, Sr. Astróbilo?--perguntou Paulinha.
--Até hoje ninguém sabe ao certo, minha querida Princhi. O que consta nas escrituras é que a criança
nasceu no meio da floresta na noite em que uma estrela azul, a mais
brilhante já vista, caiu do céu em direção à escuridão das profundezas do mar,
onde se transformou em uma linda e brilhante pedra azul em forma de espiral,
resgatada mais tarde pelos Marenos. Sr. Astróbilo fez uma pequena pausa e olhou
para o anel em meu dedo. Aliás, todos nós
olhamos para o anel por inquietantes e silenciosos segundos. Em seguida, o
velho Saikó continuou a explanação.
---E
vejam que interessante: o primeiro berço da primeira Lizka foi feito de
orquídeas violetas, encontradas nas árvores da floresta.
--Por
isso o símbolo de Bakía é uma orquídea?
--Exatamente,princesa!
Uma orquídea violeta.
--Como fizeram para não serem capturados, Sr. Astróbilo?--perguntou Paulinha ansiosa.
--A filha
da líder das Princhis, uma jovem muito bonita e bondosa, chamada Aritza,
encontrou o casal de camponeses e a criança na floresta. A partir de então, os
três passaram a viver sob a proteção das feitiçeiras. Aritza, dois anos antes,
havia dado a luz a um casal de gêmeos. O menino se chamava Hayo e logo se tornou
o melhor amigo de Laila durante os anos em que ela viveu com as Princhis. A
irmã de Hayo via essa amizade com olhos de ciúmes e inveja. Quando a Lizka
completou dezesseis anos, seus sentidos ficaram mais fortes, assim como
aconteceu com você, Churumela. -- Essa Aritza é a
atual líder das Princhis, a que me batizou?
--Sim,princesa!
--Nossa! Mas então ela é bem velhinha hein? Velhinha não! Uma múmia!
--Churumela! –repreendeu-me Paulinha.
--Que foi? Vou apelidar Aritza de Matuzalena quando voltar a Bakía.
Subitamente, Paulinha ficou triste e pensativa.
--Achei que a história de Hayo fosse uma lenda, então quer dizer que as chaves
e as profecias são verdadeiras?--perguntou Paulinha assustada.
--Peraí, de que chaves e profecias você está falando Paulinha?
--Deixe-me continuar a história, Churumela! E você também preste atenção
, Paulinha, pois não conhece todos os detalhes dela. Durante
anos, Laila visitou terras perigosas e enfrentou guerreiros muito perigosos. Todos se
rendiam às demonstrações de seus poderes, envolvendo os quatro elementos e às
suas palavras pacíficas e cheias de ternura, capazes de quebrar cabeças de
pedras e derreter corações de gelo. Muitos homens e mulheres morreram em
batalhas sangrentas contra o despotismo e intolerância dos quatro reis, defendendo
os princípios de igualdade e fraternidade difundidos pela jovem princesa.
Não se sabe ao certo quando foi exatamente que Laila fundou um novo reino: Bakía, o reino dos espelhos. Ela ordenou que aqueles
que não aceitassem viver em harmonia seriam exilados para um novo mundo: o
mundo Opaco. A Lizka prometeu que, um dia, esse novo mundo seria igual à Bakía
pois a névoa do egoísmo e do orgulho não é eterna. Além disso, estabeleceu que
cada um de Bakía e dos quatro Reinos teriam seu próprio espelho à medida que despertassem
dentro deles sentimentos e ideais nobres.
--Trata-se
do espelho que carregamos dentro de nós quando somos batizados pelas
Princhis?—perguntei.
--Sim,
princesa! É em nossos espelhos que a nossa consciência nos é revelada de forma
clara para nos guiar nas decisões e atitudes mais justas e sensatas.
No dia do
armistício de paz, quando os grandes reis juraram obediência e lealdade à
Lizka, Laila reuniu os espelhos mais puros e bondosos, daqueles que deram suas
vidas por não concordarem com o despotismo e arbitrariedades dos quatro grandes
reis, e com a ajuda das Princhis, foi feito o amuleto de Belizar, que hoje está
guardado dentro de você, Churumela. Laila deu ao povo a esperança de que tempos
de paz e harmonia estavam por vir.
Para mim,
era impossível ouvir falar do amuleto e não lembrar de Kristian. Um fio de
tristeza apertou meu peito. Sr. Astróbilo percebeu e tratou de cortá-lo.
--Churumela,
posso continuar?
--Sim,
por favor, continue!
---Muito
bem,continuar sempre. Não se esqueça disso!—Falou com olhos fixos nos meus.
Não
entendi o que ele quis dizer, talvez fosse alguma charada de Saikó, sei lá. Ow
mania dessa casta de falar coisas cheias de lições e sentidos.
--Bem...Os
novos reis dos Firenos, Terrenos, Marenos e Arenos, como prova de lealdade à
Bakía e obediência à política de paz, ofereceram à Lizka as suas mais perigosas
armas. O rei dos Terrenos levou uma ampulheta. O rei dos Firenos, por sua
vez, deu-lhe o fogo sagrado. O rei dos Arenos lhe deu uma partitura. E por
último, o rei Mareno trouxe a estrela azul em forma de pedra que caiu no mar no
momento do nascimento da princesa.
-- Essa
estrela, Sr. Astróbilo, onde ela está?--- perguntei já sabendo antecipadamente
a resposta.
--Não a reconhece
em seu dedo, princesa?
CONTINUA....