"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

sábado, 17 de maio de 2014

CAP.11 ERA UMA VEZ...



Escolhi a poltrona que ficava mais próxima da janela, onde eu podia contemplar, no céu, a arte que havia pintado. A chuva insistia em borrar meu quadro. Esforço vão! Talvez ela desse uma trégua se  soubesse que as estrelas azuis não eram de aquarela. Ou...talvez não.
Paulinha sentou-se ao lado do Sr. Astróbilo. A Princhi me olhava com a ansiedade dos curiosos e o Saikó com a paciência daqueles que desenvolveram um dos sentidos mais difíceis pra mim: ouvir. Respirei fundo e narrei tudo o que aconteceu nos últimos dois dias sem colocar vírgulas. Falei sobre o brilho inexplicável de meus olhos na aula da professora Cassandra, do anel de pedra azul que ganhei de um amigo, da visita de Melina Marilyn, no Delícias da Carne, do meu sonho com Dakan, dos três ladrões patetas e da estátua de gelo, da luz azul que o anel emitiu ao céu quando entrei no mar, do sequestro dos meus colegas de turma e,por último, do recado de fumaça na casa de Gustavo.
Ufaaaaa! Quando terminei, já não tinha mais fôlego, nem palavras e saliva. Apenas dúvidas, medo e culpa.
Paulinha me ofereceu um copo d'água, enquanto o Sr. Astróbilo se dirigiu a uma das prateleiras da estante próxima à lareira e retirou um livro grosso, de capa dura e de aspecto velho e empoeirado.
Ele se acomodou novamente em sua poltrona e repousou os óculos redondos em seus olhos cansados. Em seguida, passou as mãos no livro com o carinho de quem acorda um filho, deixando mostrar a orquídea violeta desenhada em sua capa.
--Gostaria de ouvir uma história, princesa?
--Claro que sim, Sr. Astróbilo.--Falei entusiasmada, sentando-me ao chão perto de sua cadeira.
Paulinha imitou meu gesto.
Sr. Astróbilo abriu o livro, tateando com seus dedos pequenos e enrugados os primeiros capítulos.
-- Muito bem, meninas! Então escutem com atenção a história que vou lhes contar.
-- Achei que soubesse de todas as histórias de Bakía, Sr. Astróbilo. Por que precisa desse livro?
--Ah, minha querida Lizka. Para  velhos como eu, cuja memória é escrita a grafite, a borracha do tempo não falha. Agora vejamos por onde posso começar....
--Que tal por : Era uma vez ?
Sr. Astróbilo sorriu da minha sugestão.
--Como quiser, princesa! Era uma vez, há milhares de anos, os quatro reinos viviam em guerra. Arenos, Marenos, Terrenos e Firenos disputaram entre si, durante séculos, o domínio sobre as terras, riquezas e conhecimentos uns dos outros. Bakía não existia. Sentimentos mesquinhos e egoístas dominavam o coração das pessoas. Mas um dia, as colinas Criskas fizeram uma revelação às Salinas: no mês de setembro, no dia que começasse a primavera e que uma estrela azul apontasse ao céu, nasceria uma criança de olhos violetas, que fundaria um novo reino, do qual seria a guia moral, chamado Bakía , que traria paz e harmonia às quatro Terras e cujo reflexo, um dia ,atingiria por completo outros mundos mais grosseiros, como o mundo Opaco, por exemplo. Essa criança teria todos os sentidos aguçados. Seria capaz de ver o futuro e o passado, de ler os pensamentos mais escondidos, de sentir o perfume das flores mais distantes, de escutar música onde para ouvidos comuns só havia silêncio. Ela seria o espelho capaz de refletir o que havia de melhor em cada  pessoa.
--As Salinas....nossa! Sinto saudades daquelas sete gêmeas e também das colinas de cristal. Acho que  quando voltar a Bakía...
--Shiii! Churumela, você quer ficar quieta e ouvir o resto da história?--advertiu Paulinha me cutucando.
--Ops! Desculpe, Sr. Astróbilo! Mas então? O que aconteceu quando todos souberam que nasceria uma criança de olho roxo, digo, violeta?
--Previsivelmente, os grandes reis não ficaram alegres com a notícia e passaram a vigiar todas as mulheres grávidas dentro de seus domínios. Muitas crianças foram mortas pela simples dúvida quanto a cor de seus olhos.
--Que horror!
--Sim, Paulinha! Foram tempos difíceis. Mas apesar de toda a vigilância e barbárie empregadas pelos Firenos, Terrenos, Marenos e Arenos, duzentos anos depois da primeira profecia das Salinas, uma mulher, esposa de um jardineiro, deu a luz a uma menina de olhos violeta , batizada como Laila.
--De qual reino pertenciam os pais da primeira Lizka, Sr. Astróbilo?--perguntou Paulinha.
--Até hoje ninguém sabe ao certo, minha querida Princhi. O que consta nas escrituras é que a criança nasceu  no meio da floresta na noite em que uma estrela azul, a mais brilhante já vista, caiu do céu em direção à escuridão das profundezas do mar, onde se transformou em uma linda e brilhante pedra azul em forma de espiral, resgatada mais tarde pelos Marenos. Sr. Astróbilo fez uma pequena pausa e olhou para o anel em meu dedo. Aliás, todos nós olhamos para o anel por inquietantes e silenciosos segundos. Em seguida, o velho Saikó continuou a explanação.
---E vejam que interessante: o primeiro berço da primeira Lizka foi feito de orquídeas violetas, encontradas nas árvores da floresta.
--Por isso o símbolo de Bakía é uma orquídea?
--Exatamente,princesa! Uma orquídea violeta.
--Como fizeram para não serem capturados, Sr. Astróbilo?--perguntou Paulinha ansiosa.
--A filha da líder das Princhis, uma jovem muito bonita e bondosa, chamada Aritza, encontrou o casal de camponeses e a criança na floresta. A partir de então, os três passaram a viver sob a proteção das feitiçeiras. Aritza, dois anos antes, havia dado a luz a um casal de gêmeos. O menino se chamava Hayo e logo se tornou o melhor amigo de Laila durante os anos em que ela viveu com as Princhis. A irmã de Hayo via essa amizade com olhos de ciúmes e inveja. Quando a Lizka completou dezesseis anos, seus sentidos ficaram mais fortes, assim como aconteceu com você, Churumela. -- Essa Aritza é a atual líder das Princhis, a que me batizou?
--Sim,princesa!
--Nossa! Mas então ela é bem velhinha hein? Velhinha não! Uma múmia!
--Churumela! –repreendeu-me Paulinha.
--Que foi? Vou apelidar Aritza de Matuzalena quando voltar a Bakía.
Subitamente, Paulinha ficou triste e pensativa.
--Achei que a história de Hayo fosse uma lenda, então quer dizer que as chaves e as profecias são verdadeiras?--perguntou Paulinha assustada.
--Peraí, de que chaves e profecias você está falando Paulinha?
--Deixe-me continuar a história, Churumela! E você também preste atenção , Paulinha, pois  não conhece todos os detalhes dela. Durante anos, Laila visitou terras perigosas e enfrentou guerreiros muito perigosos. Todos se rendiam às demonstrações de seus poderes, envolvendo os quatro elementos e às suas palavras pacíficas e cheias de ternura, capazes de quebrar cabeças de pedras e derreter corações de gelo. Muitos homens e mulheres morreram em batalhas sangrentas contra o despotismo e intolerância dos quatro reis, defendendo os princípios de igualdade e fraternidade difundidos pela jovem princesa.
Não se sabe ao certo quando foi exatamente que Laila fundou um novo reino: Bakía, o reino dos espelhos. Ela ordenou que aqueles que não aceitassem viver em harmonia seriam exilados para um novo mundo: o mundo Opaco. A Lizka prometeu que, um dia, esse novo mundo seria igual à Bakía pois a névoa do egoísmo e do orgulho não é eterna. Além disso, estabeleceu que cada um de Bakía e dos quatro Reinos teriam seu próprio espelho à medida que despertassem dentro deles sentimentos e ideais nobres.
--Trata-se do espelho que carregamos dentro de nós quando somos batizados pelas Princhis?—perguntei.
--Sim, princesa! É em nossos espelhos que a nossa consciência nos é revelada de forma clara para nos guiar nas decisões e atitudes mais justas e sensatas.
No dia do armistício de paz, quando os grandes reis  juraram obediência e lealdade à Lizka, Laila reuniu os espelhos mais puros e bondosos, daqueles que deram suas vidas por não concordarem com o despotismo e arbitrariedades dos quatro grandes reis, e com a ajuda das Princhis, foi feito o amuleto de Belizar, que hoje está guardado dentro de você, Churumela. Laila deu ao povo a esperança de que tempos de paz e harmonia estavam por vir.

Para mim, era impossível ouvir falar do amuleto e não lembrar de Kristian. Um fio de tristeza apertou meu peito. Sr. Astróbilo percebeu e tratou de cortá-lo.

--Churumela, posso continuar?
--Sim, por favor, continue!
---Muito bem,continuar sempre. Não se esqueça disso!—Falou com olhos fixos nos meus.
Não entendi o que ele quis dizer, talvez fosse alguma charada de Saikó, sei lá. Ow mania dessa casta de falar coisas cheias de lições e sentidos.
--Bem...Os novos reis dos Firenos, Terrenos, Marenos e Arenos, como prova de lealdade à Bakía e obediência à política de paz, ofereceram à Lizka as suas mais perigosas armas. O rei dos Terrenos levou uma ampulheta. O rei dos Firenos, por sua vez, deu-lhe o fogo sagrado. O rei dos Arenos lhe deu uma partitura. E por último, o rei Mareno trouxe a estrela azul em forma de pedra que caiu no mar no momento do nascimento da princesa.
-- Essa estrela, Sr. Astróbilo, onde ela está?--- perguntei já sabendo antecipadamente a resposta.

--Não a reconhece em seu dedo, princesa?

CONTINUA....

quarta-feira, 14 de maio de 2014

CAP.10 O QUE VOCÊ FEZ, CHURUMELA?



Chovia. O céu chorava as tormentas do mar.
Gustavo nos ofereceu uma carona até o casarão amarelo do Sr. Astróbilo. De início, Paulinha relutou em aceitar sua ajuda, preocupada, principalmente, na preservação de minha identidade e dos segredos de Bakía.
Porém,mediante a tempestade e a urgência de falar com Sr. Astróbilo, aceitamos a carona de Gustavo e entramos no carro. Xadrez, todo enxerido, assumiu o banco da frente. Ele ficava o tempo inteiro encarando Gustavo com um olhar desconfiado.  Algo me dizia que Xadrez não ia com a cara do bonitão. Ciúmes? Despeito? Hum...estranho...Mas o que não é estranho no meu cão? Ele cheira a maçã, já te contei.
Eu e Paulinha ficamos no banco de trás sussurando um diálogo que sempre segue o mesmo roteiro: Eu faço as perguntas, ela me dá respostas vagas e eu fico sem entender nada.
--Os olhos deles são diferentes, Chu!
--Que importância isso tem, Paulinha? Os meus também são ou você encontrou mais alguém com olhos violeta por aí? Se bem que há as lentes de contatos, então tudo é possível. Moda é uma coisa muito estranha né? Você acredita que outro dia eu vi um cara com olho de gato ...
--Você não está entendendo, Churumela--interrompeu Paulinha tapando minha boca com as mãos-- Os olhos dele não são opacos como os das pessoas daqui. Será que você não percebeu?
--O que você está insinuando?--perguntei quando ela tirou minha mordaça.
--Por enquanto nada! Mas vou ficar de olho.
--No olho dele?--ironizei.
--Engraçadinha.
Paulinha fez sinal para que terminasse nosso sussurro, cochicho ou fofoca, se assim preferir chamar. E então um quinto passageiro entrou no carro: O silêncio. De vez em quando, os meus olhos encontravam os de Gustavo no retrovisor. Paulinha tinha razão. Os olhos dele não eram opacos. Eles refletiam um mistério que cada vez mais me atraía. Por alguns instantes, Xadrez parecia hipnotizado pelo para-brisa, que de tanto arrastar água de um lado pra o outro arrancava do vidro gemidos, mas logo ele voltava a vigiar cada movimento de Gustavo.
A casa de Gustavo não ficava longe do casarão amarelo. Em poucos minutos, avistamos os muros que cercavam o segundo jardim mais lindo que já vi. O primeiro estava em Bakía, no castelo Largus.
--Pelo caminho que me ensinaram, acho que chegamos!-avisou Gustavo, quebrando o repouso das palavras.
O portão automático se abriu diante de nós.
Sr. Astróbilo já estava nos esperando. Nada escapa a um Saikó!
Ao atravessarmos o jardim, meus olhos procuraram por ela: a acácia amarela. Todos os domingos quando visito o casarão, fico alguns minutos contemplando a árvore e a orquídea incrustrada em seu tronco e assim sinto meus pais e Bakía mais perto de mim. Plantei a minha acácia ao lado daquela que pertenceu a minha mãe assim que retornei de Bakía. Em três dias , ela já era uma árvore adulta. A muda que as Princhis me ofereceram devia ter alguma espécie de fermento mágico.
--Xadreeeeeez!--Gritei com raiva.
Estava diante da pequena escadaria da entrada do casarão quando pisei na poça de  xixi morno de Xadrez. O mijão correu para o jardim, fugindo do meu puxão de rabo e orelhas. Não entendo esse cachorro, leitor! Foge do banho como um porco, cava buraco como uma toupeira, gruda em mim como um carrapato e tem a esperteza de um gato. Não sei se Xadrez precisa de veterinário,terapia ou educação.
--Boa noite, Joaquim!--cumprimentamos eu e Paulinha.
--Boa noite!--disse Gustavo com timidez e evitando encarar o criado.
--Boa noite, senhoritas! Boa noite senhor! Vejo que estão molhados! Entrem e se aqueçam. Vou buscar algumas toalhas!
Entramos no casarão, seguindo os passos do mordomo de filme inglês. Logo depois, Joaquim nos trouxe três toalhas que só encontraram quatro mãos.
--Paulinha, onde está Gustavo?--perguntei apreensiva.
--Ué! Ele vinha atrás de você!
Corri até o jardim, mas era tarde! Vi com olhos míopes o carro de Gustavo atravessar o portão e se perder na escuridão.
--Esse seu amigo é muito estranho, Chu! Tem alguma coisa errada com ele. Eu ainda vou descobrir o que é.
--Deve ter algo de errado é comigo, Paulinha! Eu só atraio cara complicado e confusão!
Joaquim avisou que o Sr. Astróbilo nos esperava na biblioteca. Assim que voltamos à sala, avistei as pegadas das patas de Xadrez, sujas de terra, sobre o piso de mármore branco.
O mijão passou por aqui.
Na biblioteca,  entre estantes de livros, pinturas e esculturas, o velho Saikó assistia preocupado ao noticiário da noite. O apresentador, um jovem magrelo, todo engravatado e de cabeça de pirulito( nunca vi um cabelo tão lambido) informava os expectadores sobre os acontecimentos da noite:

Depois de dias de elevadas temperaturas que fez secar , rapidamente, campos e reservatórios de água doce de todo o planeta, as chuvas dessa noite protagonizaram cenas de terror e desespero, dignas de Hitchcock. Tsunamis invadiram diversas países da Ásia, Europa e Oceania. Cogita-se que alguns deles tenham desaparecido do mapa para sempre. Milhares de cidades foram inundadas por rios, cujos leitos estavam secos há meses. Ainda não se pode estimar o número de desabrigados e mortos nem os prejuízos econômicos implicados. Os metereologistas não sabem explicar a origem do fenômeno. Curiosamente, o temporal começou pouco tempo depois do surgimento das estrelas azuis. Convidamos um astrônomo aqui no estúdio para nos esclarecer sobre essas estrelas.
--Boa noite, Doutor! Afinal, existem estrelas  azuis?
--Sim! As estrelas azuis são raras e extremamente luminosas. Suas temperaturas são tão altas que parte de sua energia é emitida através de radiação ultravioleta, invisível para os nossos olhos.
--Então não há motivos para preocupação?
--Não posso afirmar isso. As estrelas que vemos essa noite não são azuis, elas ficaram azuis. Nunca vi nada assim descrito na literatura.
--O senhor acha que isso tem alguma coisa a ver com a tempestade?
--Não sei. Não sei.
--Muito obrigado por seus esclarecimentos, Doutor! E dentro de instantes, voltaremos com mais notícias sobre o fenômeno apelidado como a tempestade azul.

Sr. Astróbilo levantou da cadeira a passos lentos, desligou a televisão e com sua voz mansa e olhos cansados fez a única pergunta que eu temia responder:

--O que você fez Churumela?

CONTINUA....

segunda-feira, 12 de maio de 2014

CAP.09 ONDE HÁ FUMAÇA, HÁ FOGO



A chuva furiosa  rasgava a noite, que gritava ao som de trovões. Relâmpagos roubavam a escuridão do quarto, mas logo a devolvia a nossos olhos. Um silêncio sepulcral invadiu a casa, matando as palavras e nomeando o medo seu coveiro, que  tratou de enterrá-las em algum lugar onde eu não as pudesse achar. Em resumo e sem churumelas, de repente, caiu uma baita tempestade,leitor.
--Churumela, fale alguma coisa!--Disse Paulinha angustiada.
Ao ouvir o nome Melina, imediatamente meus olhos se fixaram na imagem da mulher ruiva, de olhos de abismo e sorriso malicioso, tatuada na lembrança do nosso encontro na Delícias da Carne.
Uma corrente de ar assobiou pelas janelas do quarto, flertando minha atenção e me despertando do estado de pânico que me invadiu.
--Paulinha, o que está havendo? Vejo medo em seus olhos.
--E eu não vejo nada! LAMITI AZI!
Dois pontos de luz azul furaram a escuridão como agulhas, guiando  nossos caminhos até a escadaria. Não precisava da luz azul para enxergar. Segundo Sr. Astróbilo me ensinara em uma de suas aulas, os olhos violetas são capazes de distinguir sombras na escuridão. A única luz de que precisam é a que vem dentro de mim e não são poucas as vezes que a minha insegurança, falta de fé e covardia conseguem apagá-la.
--Churumela, será que as explicações podem ficar para depois? Preciso tirá-la dessa casa.
Mesmo contrariada, assenti.
Descemos com pés de bailarinas os degraus de madeira como se fossem de cristal. Chegamos até a sala. E aí vem a surpresa: Estava vazia com a porta e as janelas abertas. Alguns biscoitos jaziam sobre o chão de madeira esfarelados. Imaginei que os demais já assistiam sua missa de sétimo dia no estômago de Gui. Uma xícara caída de chocolate quente aquecia as lendas mortas descritas nos papéis sobre a mesa de centro. Línguas de fogo, vindas da lareira ( que não estava acesa, quando subimos ao quarto de Gustavo), lambiam a noite que se hospedou na casa. Era possível sentir o gosto da tensão no ar. Horrível, por sinal. Não havia vestígios dos meus amigos. Por instinto ou por uma razão que ainda não me era consciente, me aproximei do quadro das pegadas. Fiquei admirando a obra de arte, imóvel, com o olhar congelado e sem expressão.
--Churumela, isso é hora de apreciar quadro? Vamos embora daqui!
Paulinha me puxou pelo braço e a passos de maratonista se dirigiu à porta.
Já estávamos no terraço da casa de madeira, quando uma vontade incontrolável de voltar à sala  me imobilizou. A chuva erguia paredes transparentes entre o telhado e o chão arenoso do jardim.
--O que foi, Chu? Empacou de novo?
--Preciso voltar. E você está me saindo uma Princhi muito medrosa, Paulinha. Não se preocupe pois Melina não está aqui.
--Como sabe?
--Se quisesse me fazer algum mal, já o teria feito.
--Churumela, o que você ainda não me contou?
Ainda pensei por longos cinco segundos se deveria contar a verdade ou omitir. Escolhi a primeira opção por pura falta de criatividade que me exigia a segunda.
--Ela me visitou no Delícias da Carne hoje mais cedo. Tivemos um breve diálogo.
--O que conversaram?
--Acho que nossos olhos falaram mais do que os lábios. Ela ficou surpresa quando viu o anel e...--titubeei, pensando nos custos e benefícios de completar a frase.
--E o quê? Fala, Churumela!
Constatei que me custava muito esconder alguma coisa de Paulinha.
--E comentou algo sobre a lenda de Hayo.
--O que ela disse exatamente?
--Só isso!
--Só isso?--Perguntou Paulinha desconfiada.
--Só! Paulinha, tem alguma coisa naquela sala ,que deixei passar. Preciso voltar lá.
--Eu vou com você. Não sou medrosa como pensa.
--É claro que não, amiga!--disse em alto e bom tom --Só um pouquinho--completei baixinho.
Entramos novamente na sala escura e fotografei cada ângulo e parede à procura da assinatura de Melina.
Ela esteve aqui. Deve ter deixado algo pra mim. Mas onde será que está?
Já estávamos há dez minutos procurando alguma pista deixada por Melina , quando ouvi a madeira do terraço ranger sob dois pés e quatro patas. Eu e Paulinha tivemos um susto quando vimos duas silhuetas cortarem a escuridão, paradas na entrada da sala. Bastou um latido pra saber de quem se tratava.
--Xadrez? Gustavo? Onde vocês estavam? Cadê Guilherme e Gisela?
--KAZING!—falou Paulinha baixinho e rapidamente as luzes azuis desapareceram.
--Ué? Não estão aqui?--Perguntou Gustavo surpreso, deixando cair sobre o sofá duas sacolas de supermercado e ligando a lanterna do celular.
--Não!--Respondemos eu e Paulinha em uníssono.
--Que estranho! Eu e Xadrez saímos um pouco depois de vocês subirem  pra comprar mais biscoitos e chocolate pois Guilherme já havia devorado quase toda minha dispensa. E quando voltei, vi a casa às escuras. A rua está toda iluminada. Acho que o circuito da casa está velho e precisa de ....
--Gustavo, Guilherme e Gisela desapareceram--interrompeu Paulinha.
--O quê?!--Perguntou Gustavo transtornado.
Inexplicavelmente, as luzes amarelas da casa reascenderam .
-- Eles podem ter deixado algum recado . Vou procurar lá em cima – disse Gustavo.
--Churumela, veja o que tem aqui!--Gritou Paulinha, apontando pra uma prateleira, que ficava acima da lareira, onde havia uma pequena caixa de madeira escura, que cabia na palma da mão, em cuja tampa estava entalhada a figura de um olho de pálpebras fechadas.
--O símbolo das Princhis da Floresta Negra. Churumela, não abra!
Não obedeci à rogativa de Paulinha. Abri a caixinha e dentro dela havia um pedaço da noite em pó, mas sem estrelas. O vento entrou sorrateiro por uma das janelas carregando o pó negro de minhas mãos até às línguas de fogo, que o tragaram com desespero exalando uma fumaça cinzenta, que se espalhou na sala, formando palavras no ar.

 Lizka, se quiser ver seus amigos de volta, me encontre amanhã às 23h no teatro municipal. Vá sozinha!
Melina


É leitor....Melina me mostrou a fumaça. Precisava ir atrás do fogo. E descobrir a verdade era o único jeito de não me queimar.

CONTINUA....