Chovia. O céu chorava as
tormentas do mar.
Gustavo nos ofereceu
uma carona até o casarão amarelo do Sr. Astróbilo. De início, Paulinha relutou
em aceitar sua ajuda, preocupada, principalmente, na preservação de minha
identidade e dos segredos de Bakía.
Porém,mediante a tempestade
e a urgência de falar com Sr. Astróbilo, aceitamos a carona de Gustavo e
entramos no carro. Xadrez, todo enxerido, assumiu o banco da frente. Ele ficava o tempo inteiro encarando Gustavo com um olhar desconfiado. Algo me dizia que Xadrez não ia com a cara do
bonitão. Ciúmes? Despeito? Hum...estranho...Mas o que não é estranho no meu
cão? Ele cheira a maçã, já te contei.
Eu e Paulinha
ficamos no banco de trás sussurando um diálogo que sempre segue o
mesmo roteiro: Eu faço as perguntas, ela me dá respostas vagas e eu fico
sem entender nada.
--Os olhos deles são
diferentes, Chu!
--Que importância isso tem, Paulinha?
Os meus também são ou você encontrou mais alguém com olhos violeta por aí? Se
bem que há as lentes de contatos, então tudo é possível. Moda é uma coisa muito
estranha né? Você acredita que outro dia eu vi um cara com olho de gato ...
--Você não está entendendo,
Churumela--interrompeu Paulinha tapando minha boca com as mãos-- Os
olhos dele não são opacos como os das pessoas daqui. Será que você não
percebeu?
--O que você está insinuando?--perguntei
quando ela tirou minha mordaça.
--Por enquanto nada! Mas vou
ficar de olho.
--No olho dele?--ironizei.
--Engraçadinha.
Paulinha fez sinal para que
terminasse nosso sussurro, cochicho ou fofoca, se assim preferir chamar. E
então um quinto passageiro entrou no carro: O silêncio. De vez em quando, os
meus olhos encontravam os de Gustavo no retrovisor. Paulinha tinha razão. Os
olhos dele não eram opacos. Eles refletiam um mistério que cada vez mais
me atraía. Por alguns instantes, Xadrez parecia hipnotizado pelo para-brisa, que
de tanto arrastar água de um lado pra o outro arrancava do vidro
gemidos, mas logo ele voltava a vigiar cada movimento de Gustavo.
A casa de Gustavo não ficava
longe do casarão amarelo. Em poucos minutos, avistamos os muros que cercavam o
segundo jardim mais lindo que já vi. O primeiro estava em Bakía, no castelo
Largus.
--Pelo caminho que me ensinaram,
acho que chegamos!-avisou Gustavo, quebrando o repouso das palavras.
O portão automático se abriu
diante de nós.
Sr.
Astróbilo já estava nos esperando. Nada escapa a um Saikó!
Ao atravessarmos o jardim, meus
olhos procuraram por ela: a acácia amarela. Todos os domingos quando
visito o casarão, fico alguns minutos
contemplando a árvore e a orquídea incrustrada em seu tronco e
assim sinto meus pais e Bakía mais perto de mim. Plantei a minha acácia ao lado
daquela que pertenceu a minha mãe assim que retornei de Bakía. Em três dias ,
ela já era uma árvore adulta. A muda que as Princhis me ofereceram devia ter
alguma espécie de fermento mágico.
--Xadreeeeeez!--Gritei com
raiva.
Estava diante da pequena
escadaria da entrada do casarão quando pisei na poça de xixi morno de
Xadrez. O mijão correu para o jardim, fugindo do meu puxão de rabo e
orelhas. Não entendo esse cachorro, leitor! Foge do banho como um porco, cava
buraco como uma toupeira, gruda em mim como um carrapato e tem a
esperteza de um gato. Não sei se Xadrez precisa de veterinário,terapia ou
educação.
--Boa noite, Joaquim!--cumprimentamos
eu e Paulinha.
--Boa noite!--disse Gustavo
com timidez e evitando encarar o criado.
--Boa noite, senhoritas! Boa
noite senhor! Vejo que estão molhados! Entrem e se aqueçam. Vou buscar algumas
toalhas!
Entramos no casarão,
seguindo os passos do mordomo de filme inglês. Logo depois, Joaquim nos
trouxe três toalhas que só encontraram quatro mãos.
--Paulinha, onde está
Gustavo?--perguntei apreensiva.
--Ué! Ele vinha atrás de
você!
Corri até o jardim, mas era
tarde! Vi com olhos míopes o carro de Gustavo atravessar o portão e se perder
na escuridão.
--Esse seu amigo é muito
estranho, Chu! Tem alguma coisa errada com ele. Eu ainda vou descobrir o que é.
--Deve ter algo de errado é
comigo, Paulinha! Eu só atraio cara complicado e confusão!
Joaquim avisou que o Sr.
Astróbilo nos esperava na biblioteca. Assim que voltamos à sala, avistei
as pegadas das patas de Xadrez, sujas de terra, sobre o piso de mármore
branco.
O
mijão passou por aqui.
Na biblioteca, entre
estantes de livros, pinturas e esculturas, o velho Saikó assistia
preocupado ao noticiário da noite. O apresentador, um jovem magrelo,
todo engravatado e de cabeça de pirulito( nunca vi um cabelo tão
lambido) informava os expectadores sobre os acontecimentos da noite:
Depois de dias de elevadas
temperaturas que fez secar , rapidamente, campos e reservatórios de
água doce de todo o planeta, as chuvas dessa noite protagonizaram cenas de
terror e desespero, dignas de Hitchcock. Tsunamis invadiram
diversas países da Ásia, Europa e Oceania. Cogita-se que alguns deles
tenham desaparecido do mapa para sempre. Milhares de cidades foram inundadas
por rios, cujos leitos estavam secos há meses. Ainda não se pode estimar o
número de desabrigados e mortos nem os prejuízos econômicos implicados. Os
metereologistas não sabem explicar a origem do fenômeno. Curiosamente, o
temporal começou pouco tempo depois do surgimento das estrelas azuis.
Convidamos um astrônomo aqui no estúdio para nos esclarecer sobre essas
estrelas.
--Boa noite, Doutor! Afinal,
existem estrelas azuis?
--Sim! As estrelas azuis são
raras e extremamente luminosas. Suas temperaturas são tão altas que parte
de sua energia é emitida através de radiação ultravioleta, invisível para os
nossos olhos.
--Então não há motivos para
preocupação?
--Não posso afirmar isso. As
estrelas que vemos essa noite não são azuis, elas ficaram azuis. Nunca vi
nada assim descrito na literatura.
--O senhor acha que isso tem
alguma coisa a ver com a tempestade?
--Não sei. Não sei.
--Muito obrigado por seus
esclarecimentos, Doutor! E dentro de instantes, voltaremos com mais notícias
sobre o fenômeno apelidado como a tempestade azul.
Sr. Astróbilo levantou da
cadeira a passos lentos, desligou a televisão e com sua voz mansa e olhos
cansados fez a única pergunta que eu temia responder:
--O que você fez Churumela?
CONTINUA....
CONTINUA....
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