"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

CAP.10 O QUE VOCÊ FEZ, CHURUMELA?



Chovia. O céu chorava as tormentas do mar.
Gustavo nos ofereceu uma carona até o casarão amarelo do Sr. Astróbilo. De início, Paulinha relutou em aceitar sua ajuda, preocupada, principalmente, na preservação de minha identidade e dos segredos de Bakía.
Porém,mediante a tempestade e a urgência de falar com Sr. Astróbilo, aceitamos a carona de Gustavo e entramos no carro. Xadrez, todo enxerido, assumiu o banco da frente. Ele ficava o tempo inteiro encarando Gustavo com um olhar desconfiado.  Algo me dizia que Xadrez não ia com a cara do bonitão. Ciúmes? Despeito? Hum...estranho...Mas o que não é estranho no meu cão? Ele cheira a maçã, já te contei.
Eu e Paulinha ficamos no banco de trás sussurando um diálogo que sempre segue o mesmo roteiro: Eu faço as perguntas, ela me dá respostas vagas e eu fico sem entender nada.
--Os olhos deles são diferentes, Chu!
--Que importância isso tem, Paulinha? Os meus também são ou você encontrou mais alguém com olhos violeta por aí? Se bem que há as lentes de contatos, então tudo é possível. Moda é uma coisa muito estranha né? Você acredita que outro dia eu vi um cara com olho de gato ...
--Você não está entendendo, Churumela--interrompeu Paulinha tapando minha boca com as mãos-- Os olhos dele não são opacos como os das pessoas daqui. Será que você não percebeu?
--O que você está insinuando?--perguntei quando ela tirou minha mordaça.
--Por enquanto nada! Mas vou ficar de olho.
--No olho dele?--ironizei.
--Engraçadinha.
Paulinha fez sinal para que terminasse nosso sussurro, cochicho ou fofoca, se assim preferir chamar. E então um quinto passageiro entrou no carro: O silêncio. De vez em quando, os meus olhos encontravam os de Gustavo no retrovisor. Paulinha tinha razão. Os olhos dele não eram opacos. Eles refletiam um mistério que cada vez mais me atraía. Por alguns instantes, Xadrez parecia hipnotizado pelo para-brisa, que de tanto arrastar água de um lado pra o outro arrancava do vidro gemidos, mas logo ele voltava a vigiar cada movimento de Gustavo.
A casa de Gustavo não ficava longe do casarão amarelo. Em poucos minutos, avistamos os muros que cercavam o segundo jardim mais lindo que já vi. O primeiro estava em Bakía, no castelo Largus.
--Pelo caminho que me ensinaram, acho que chegamos!-avisou Gustavo, quebrando o repouso das palavras.
O portão automático se abriu diante de nós.
Sr. Astróbilo já estava nos esperando. Nada escapa a um Saikó!
Ao atravessarmos o jardim, meus olhos procuraram por ela: a acácia amarela. Todos os domingos quando visito o casarão, fico alguns minutos contemplando a árvore e a orquídea incrustrada em seu tronco e assim sinto meus pais e Bakía mais perto de mim. Plantei a minha acácia ao lado daquela que pertenceu a minha mãe assim que retornei de Bakía. Em três dias , ela já era uma árvore adulta. A muda que as Princhis me ofereceram devia ter alguma espécie de fermento mágico.
--Xadreeeeeez!--Gritei com raiva.
Estava diante da pequena escadaria da entrada do casarão quando pisei na poça de  xixi morno de Xadrez. O mijão correu para o jardim, fugindo do meu puxão de rabo e orelhas. Não entendo esse cachorro, leitor! Foge do banho como um porco, cava buraco como uma toupeira, gruda em mim como um carrapato e tem a esperteza de um gato. Não sei se Xadrez precisa de veterinário,terapia ou educação.
--Boa noite, Joaquim!--cumprimentamos eu e Paulinha.
--Boa noite!--disse Gustavo com timidez e evitando encarar o criado.
--Boa noite, senhoritas! Boa noite senhor! Vejo que estão molhados! Entrem e se aqueçam. Vou buscar algumas toalhas!
Entramos no casarão, seguindo os passos do mordomo de filme inglês. Logo depois, Joaquim nos trouxe três toalhas que só encontraram quatro mãos.
--Paulinha, onde está Gustavo?--perguntei apreensiva.
--Ué! Ele vinha atrás de você!
Corri até o jardim, mas era tarde! Vi com olhos míopes o carro de Gustavo atravessar o portão e se perder na escuridão.
--Esse seu amigo é muito estranho, Chu! Tem alguma coisa errada com ele. Eu ainda vou descobrir o que é.
--Deve ter algo de errado é comigo, Paulinha! Eu só atraio cara complicado e confusão!
Joaquim avisou que o Sr. Astróbilo nos esperava na biblioteca. Assim que voltamos à sala, avistei as pegadas das patas de Xadrez, sujas de terra, sobre o piso de mármore branco.
O mijão passou por aqui.
Na biblioteca,  entre estantes de livros, pinturas e esculturas, o velho Saikó assistia preocupado ao noticiário da noite. O apresentador, um jovem magrelo, todo engravatado e de cabeça de pirulito( nunca vi um cabelo tão lambido) informava os expectadores sobre os acontecimentos da noite:

Depois de dias de elevadas temperaturas que fez secar , rapidamente, campos e reservatórios de água doce de todo o planeta, as chuvas dessa noite protagonizaram cenas de terror e desespero, dignas de Hitchcock. Tsunamis invadiram diversas países da Ásia, Europa e Oceania. Cogita-se que alguns deles tenham desaparecido do mapa para sempre. Milhares de cidades foram inundadas por rios, cujos leitos estavam secos há meses. Ainda não se pode estimar o número de desabrigados e mortos nem os prejuízos econômicos implicados. Os metereologistas não sabem explicar a origem do fenômeno. Curiosamente, o temporal começou pouco tempo depois do surgimento das estrelas azuis. Convidamos um astrônomo aqui no estúdio para nos esclarecer sobre essas estrelas.
--Boa noite, Doutor! Afinal, existem estrelas  azuis?
--Sim! As estrelas azuis são raras e extremamente luminosas. Suas temperaturas são tão altas que parte de sua energia é emitida através de radiação ultravioleta, invisível para os nossos olhos.
--Então não há motivos para preocupação?
--Não posso afirmar isso. As estrelas que vemos essa noite não são azuis, elas ficaram azuis. Nunca vi nada assim descrito na literatura.
--O senhor acha que isso tem alguma coisa a ver com a tempestade?
--Não sei. Não sei.
--Muito obrigado por seus esclarecimentos, Doutor! E dentro de instantes, voltaremos com mais notícias sobre o fenômeno apelidado como a tempestade azul.

Sr. Astróbilo levantou da cadeira a passos lentos, desligou a televisão e com sua voz mansa e olhos cansados fez a única pergunta que eu temia responder:

--O que você fez Churumela?

CONTINUA....

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