"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

terça-feira, 6 de maio de 2014

CAP. 07 SERÁ??



Com as pernas cambaleantes e as mãos trêmulas, cheguei à casa da praia. Mas não tive coragem de entrar. Contemplei, por alguns instantes, o  muro de pedra caverna que a rodeava e o grande portão de madeira, que guardava sua entrada, tão perto de meus olhos, mas longe de meus passos. Caminhei em direção ao mar onde minha consciência agonizava afogada na culpa. Ainda podia ver o pó gelado que impregnou meu corpo e cabelos com a ventania.
A tatuagem do meu crime. Aquele ladrão desapareceu por minha causa! O que foi que fiz?
Senti uma vontade incontrolável de tornar o mar meu cúmplice. Precisava me livrar do anel bruxo, do anel maldito!
Deixei a mochila na areia e entrei no mar com o olhar fixo na lembrança do ladrão tocando o anel. As águas estavam agitadas e frias. Não percebi o quanto tinha adentrado até meus pés não encontrarem o chão e meus pulmões , o ar.
--Socorro!Socorro! ---Gritei para apenas o silêncio da noite ouvir.
Apesar de ter sido uma excelente aluna de natação, nos tempos de clube, uma corrente de água  me puxou para o fundo e as ondas, cada vez maiores e mal-humoradas, impediram meu retorno à praia.
Que ironia! Eu só queria lavar minha alma, mas o mar queria levá-la.
Enquanto afundava, olhei pra o anel. Um intenso feixe de luz azul partiu de seu centro em direção ao céu.
Perdi os sentidos com o abraço do mar. E só os recuperei com o beijo de Gustavo.
--O que você está fazendo?--Perguntei irritada.
--Chama-se respiração boca-a-boca.Você quase se afogou. Posso saber o que estava tentando fazer?
Respirei fundo várias vezes pra que o ar aquecesse meus pulmões e meus neurônios também. Precisava de uma desculpa!
--A noite está muito quente! Quis me refrescar um pouco e não percebi o quanto estava longe da praia. Depois veio uma corrente de água e as ondas ....Ah! Chega! Estou bem! Isso é o que importa! E graças a você! Obrigada!
Dava pra perceber que Gustavo não havia acreditado em uma palavra sequer desse meu discurso inventado. Mas ele não me fez mais perguntas.
--Vamos entrar, Churumela! Gigi e Guilherme estão nos esperando lá dentro.
--Espera, Gustavo! Preciso falar com você sobre o anel e aquela história maluca de casamento.
--Vai terminar pegando um resfriado! Está toda molhada! Podemos conversar lá dentro?
Gustavo não esperou pela resposta. Tomou-me nos braços e me levou até a casa.
--Eu não estou aleijada das pernas!
--Mas está do juízo! Você é louquinha, Churumela!
--E você é o senhor sensatez!
--Acho que por isso vai dar certo!
--Dar certo o quê?
--Eu e você.
--Acredita mesmo que vamos casar?
--Tenho paciência.
--Eu não tenho!
--Eu sei! Eu sei tudo sobre você, princesa.
Ai,ai,ai, leitor! Senti um arrepio na espinha quando ele disse isso. Estranho....Muuuuito estranho!
Gustavo havia deixado o portão aberto quando se aventurou no mar pra me salvar. Atravessamos um terreno de areia e pedras , que apesar de hostil, abrigava uma grande, frondosa e solitária acácia amarela.
Quando chegamos à casa, Gisela e Gui nos esperavam na entrada. Gustavo me pôs de pé no chão e quase fui derrubada pela inveja e ciúme de Gisela, também conhecida como Gigi, esqueci de te contar.
--Estava tentando chamar a atenção de Gustavo, Churumela?
--Não preciso! Ela já me pertence, Gigi!--provoquei.
Gisela me pulverizou com os olhos, tal como minhas palavras fizeram com seu orgulho. Gustavo, percebendo o clima de tensão que começava a se formar, nos convidou a entrar. A casa era linda como eu imaginava.
Tinha um largo terraço de madeira na frente com um rede que balançava mistério e solidão. As portas e janelas eram de madeira maciça e talhadas com curvas semelhantes a ondas. A sala era enorme e tinha uma lareira em uma das paredes, que a tornava ainda mais aconchegante. O teto, o piso, as paredes e a escada, que ficava no centro da sala, eram feitos de madeira envernizada, muito bonita. Os móveis eram simples, sem muitos adornos. Chamou minha atenção um dos vários quadros de mar expostos nas paredes: Retratava uma grande onda que ia de encontro à praia e dois tipos de pegadas que seguiam em direção ao mar. Não havia pessoas. Apenas o mar, a areia e as pegadas. O quadro me provocava um misto de inquietação e paz! Ele me parecia, sei lá, meio familiar.
Gustavo  trouxe um casaco e calça de algodão para me vestir. Tomei um banho demorado com a esperança de que a confusão daquela noite fosse embora ,junto com a areia e sal da praia pelo ralo. Quando me vi no espelho, não pude deixar de mangar de mim mesma: parecia um saco de batata, de tão folgadas que as roupas ficaram em mim. Tentei ficar o mais apresentável possível e me juntei aos demais na sala.
Xícaras de chocolate quente e alguns biscoitos de manteiga, na mesa de centro,  disputavam espaço com computadores e resmas de papéis de pesquisa trazidos pelos meus colegas de grupo. Sentei perto de Gui e logo depois começou a reunião com uma mordida venenosa de Gisela dirigida a mim, é claro.
--Bem, acho que finalmente podemos começar depois de uma hora de atraso.
--Quero pedir desculpas a todos. Não foi minha intenção. Eu...
--Não precisa, Churumela! Você está bem?
--Estou sim! Obrigado por perguntar, Gui.
Guilherme é um fofo e merece algumas linhas de descrição. Estudamos juntos, há anos, desde a alfabetização, eu acho. Mas só nos tornamos amigos quando meu pai morreu. Gui  me deu a maior força nas tarefas de casa e nos trabalhos durante meu período de luto. Ele ia ao meu apartamento quase todos os dias para explicar as lições e nunca usou sua super inteligência como desculpa para arrogância. Não é bonito nem feio. Acho ele normal. Quer dizer, normal? Não! Ninguém com uma inteligência como a dele pode ser normal. Parece que ele carrega um pendrive na cabeça. Tem cabelos de cachinhos , ruivos, e usa um óculos redondo que esconde seus olhos grandes e verdes. É magrelo, alto e meio desengonçado. Bem...se não é bonito nem feio nem normal...só sobrou estranho. Isso! É isso! Gui é estranho , mas um estranho tão fofo que vira normal na escala da beleza! Eu me enrolei muito ou deu pra entender o que quis dizer?
--Depois de seus olhos virarem dois holofotes violetas, agora deu pra querer visitar as profundezas do mar? Lá é bem escuro, talvez seus olhos tenham alguma serventia.
--Já chega, Gisela! ---gritou Gustavo estranhamente alterado--Combinamos de não tocar nesse assunto. Já expliquei que o que houve ontem, não foi nada demais. Olhos violetas são raros e em contato com o sol refletem um brilho diferente.
--Na verdade, Gustavo, não vi isso em livro nenhum. Não há respaldo científico pra essa explicação, inclusive, andei pesquisando ....
--Por favor, Gui!--pediu, educadamente, Gustavo.
--Está bem. Vamos deixar isso pra lá. Inclusive o incidente de hoje. Ouviu Gigi?
--Sim!--Respondeu a chata, a contragosto.
Observei todo o empenho de Gustavo em me proteger sem dizer nenhuma palavra. Era estranho o quanto se importava comigo.
--Eu fiz um apanhado sobre lendas folclóricas brasileiras. Poderíamos escolher essa vertente de trabalho. Selecionaríamos algumas pra contar, detalhando os significados contidos nas histórias, as suas origens, as diferentes versões etc.O que acham?—perguntou Gisela olhando Gustavo e Guilherme com curiosidade. Para mim, dedicou sua indiferença, mais uma vez, é claro.
--Acho que é uma excelente ideia, Gisela!--enalteceu Guilherme com a boca cheia de biscoitos, cujo pote sua gula não cansava de visitar.
--E quanto a você, Churumela? O que trouxe pra nós?
--Peço desculpas de novo, gente! Mas esqueci completamente da reunião. Ontem tive que hospedar uma velha amiga, hoje trabalhei o dia inteiro e ainda aconteceram coisas que....-- parei antes que as palavras  traíssem meus segredos.
Gisela , com o dedo em riste, se preparava pra me alvejar com todas as reclamações e humilhações de seu arsenal de palavras envenenadas e belicosas , quando Guilherme se adiantou.
--Haverá outros encontros, Chu. Suas razões são fortes. Não precisa pedir desculpas. Ninguém aqui irá culpá-la de nada. Ninguém!--falou olhando fixamente pra Gisela.
--Obrigada!--falei baixinho em seu ouvido.
Ele me ofereceu uma piscadela.
--E o que trouxe pra nós, Guilherme?--perguntou Gisela,a pedante.
--Bem, eu acho que poderíamos falar sobre lendas universais famosas, consagradas por filmes, livros e extenuamente discutidas ao longo da história.
--Gostei da ideia, Gui!--disse Gustavo, que não tirava os olhos de mim.
--Eu também!-- resolvi finalmente falar em defesa do meu defensor da noite.
Gigi ficou encolerizada com a aprovação do grupo à ideia de Guilherme.
--Irão preferia a ideia dele à minha?
--Não dissemos isso, Gigi. Podemos até juntar as ideias e fazer algo bem bacana. Hoje é apenas a primeira reunião. Não há razão pra se sentir preterida.--As palavras doces de Gustavo eram suficientes pra amansar qualquer um, inclusive a bruxa da Gisela. Ops, bruxa não! Porque isso seria ofender minha amiga Paulinha. Cobra é um substantivo que cabe perfeitamente a Gisela como adjetivo.
--E sobre quais lendas pesquisou?--Perguntou Gisela mais calma.
--Ah, várias!
Guilherme, entusiasmado, pegou uma pilha de papéis e começou a ler uma lista de títulos, alguns conhecidos outros nem tanto aos meus ouvidos.
--Hum...Vejamos o que tenho aqui: A lenda de Atlântida, de Robin Hood,do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda,da pedra filosofal, do...
--Espere, Guilherme!--ao escutar o último título, fui corroída por uma curiosidade ácida.
--O que foi,Churumela?
--Do que se trata essa pedra filosofal?
--É a pedra dos alquimistas. Aquela capaz de transformar qualquer metal em ouro e de produzir um elixir que confere a vida eterna.
Ao ouvir sobre a história da pedra, lâmpadas de perguntas se acenderam em minha cabeça: E se existir mesmo um anel que transforma o metal? E se a lenda estiver errada e o anel transformar o metal em gelo em vez  de ouro? E esse elixir? Por sinal, o que é um elixir, hein? Hum... essa coisa, o elixir, torna a pessoa imortal? Mas como? Não é possível! Só pode ser mesmo uma lenda! Será?!
--Churumela, acorda! Presta atenção! Parece que tá no mundo da lua—gritou o interruptor que apagou meus minutos de divagações, Gisela.
--Gui, o que é elixir? –perguntei de supetão.
--Um espécie de bebida, porção mágica. Por que, Churumela?
Olhei fixamente o anel por alguns segundos, hipnotizada por sua beleza.

--Por nada, por nada....

CONTINUA.....

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