Com as pernas cambaleantes e
as mãos trêmulas, cheguei à casa da praia. Mas não tive coragem de
entrar. Contemplei, por alguns instantes, o muro de pedra
caverna que a rodeava e o grande portão de madeira, que guardava sua entrada, tão
perto de meus olhos, mas longe de meus passos. Caminhei em direção ao mar
onde minha consciência agonizava afogada na culpa. Ainda podia ver o pó
gelado que impregnou meu corpo e cabelos com a ventania.
A
tatuagem do meu crime. Aquele ladrão desapareceu por minha causa! O que foi que
fiz?
Senti uma vontade
incontrolável de tornar o mar meu cúmplice. Precisava me livrar do anel bruxo, do
anel maldito!
Deixei a mochila na areia e
entrei no mar com o olhar fixo na lembrança do ladrão tocando o anel. As águas
estavam agitadas e frias. Não percebi o quanto tinha adentrado até meus
pés não encontrarem o chão e meus pulmões , o ar.
--Socorro!Socorro! ---Gritei
para apenas o silêncio da noite ouvir.
Apesar de ter sido uma
excelente aluna de natação, nos tempos de clube, uma corrente de água me
puxou para o fundo e as ondas, cada vez maiores e mal-humoradas, impediram meu
retorno à praia.
Que ironia! Eu só queria
lavar minha alma, mas o mar queria levá-la.
Enquanto
afundava, olhei pra o anel. Um intenso feixe de luz azul partiu de
seu centro em direção ao céu.
Perdi os sentidos com o
abraço do mar. E só os recuperei com o beijo de Gustavo.
--O que você está
fazendo?--Perguntei irritada.
--Chama-se respiração
boca-a-boca.Você quase se afogou. Posso saber o que estava tentando fazer?
Respirei fundo várias vezes
pra que o ar aquecesse meus pulmões e meus neurônios também. Precisava de
uma desculpa!
--A noite está muito quente!
Quis me refrescar um pouco e não percebi o quanto estava longe da praia. Depois
veio uma corrente de água e as ondas ....Ah! Chega! Estou bem! Isso é o que
importa! E graças a você! Obrigada!
Dava pra perceber que
Gustavo não havia acreditado em uma palavra sequer desse meu discurso
inventado. Mas ele não me fez mais perguntas.
--Vamos entrar, Churumela! Gigi
e Guilherme estão nos esperando lá dentro.
--Espera, Gustavo! Preciso
falar com você sobre o anel e aquela história maluca de casamento.
--Vai terminar pegando um
resfriado! Está toda molhada! Podemos conversar lá dentro?
Gustavo não esperou pela
resposta. Tomou-me nos braços e me levou até a casa.
--Eu não estou aleijada das
pernas!
--Mas está do juízo! Você é
louquinha, Churumela!
--E você é o senhor sensatez!
--Acho que por isso vai dar
certo!
--Dar certo o quê?
--Eu e você.
--Acredita mesmo que vamos
casar?
--Tenho paciência.
--Eu não tenho!
--Eu sei! Eu sei tudo sobre
você, princesa.
Ai,ai,ai, leitor! Senti um
arrepio na espinha quando ele disse isso. Estranho....Muuuuito estranho!
Gustavo havia deixado o
portão aberto quando se aventurou no mar pra me salvar. Atravessamos um terreno
de areia e pedras , que apesar de hostil, abrigava uma grande, frondosa e
solitária acácia amarela.
Quando chegamos à casa,
Gisela e Gui nos esperavam na entrada. Gustavo me pôs de pé no chão e quase fui
derrubada pela inveja e ciúme de Gisela, também conhecida como Gigi, esqueci de
te contar.
--Estava tentando chamar a
atenção de Gustavo, Churumela?
--Não preciso! Ela já me
pertence, Gigi!--provoquei.
Gisela me pulverizou com os
olhos, tal como minhas palavras fizeram com seu orgulho. Gustavo, percebendo o
clima de tensão que começava a se formar, nos convidou a entrar. A casa era
linda como eu imaginava.
Tinha um largo terraço de
madeira na frente com um rede que balançava mistério e solidão. As portas e janelas
eram de madeira maciça e talhadas com curvas semelhantes a ondas. A sala era
enorme e tinha uma lareira em uma das paredes, que a tornava ainda mais
aconchegante. O teto, o piso, as paredes e a escada, que ficava no centro da
sala, eram feitos de madeira envernizada, muito bonita. Os móveis eram
simples, sem muitos adornos. Chamou minha atenção um dos vários quadros de mar expostos nas paredes: Retratava uma grande
onda que ia de encontro à praia e dois tipos de pegadas que seguiam em direção
ao mar. Não havia pessoas. Apenas o mar, a areia e as pegadas. O quadro me
provocava um misto de inquietação e paz! Ele me parecia, sei lá, meio familiar.
Gustavo trouxe um
casaco e calça de algodão para me vestir. Tomei um banho demorado com a
esperança de que a confusão daquela noite fosse embora ,junto com a
areia e sal da praia pelo ralo. Quando me vi no espelho, não pude deixar de
mangar de mim mesma: parecia um saco de batata, de tão folgadas que as roupas ficaram
em mim. Tentei ficar o mais apresentável possível e me juntei aos demais na
sala.
Xícaras de chocolate quente
e alguns biscoitos de manteiga, na mesa de centro, disputavam espaço com computadores e resmas de
papéis de pesquisa trazidos pelos meus colegas de grupo. Sentei perto de Gui e logo
depois começou a reunião com uma mordida venenosa de Gisela dirigida a mim, é
claro.
--Bem, acho que finalmente
podemos começar depois de uma hora de atraso.
--Quero pedir desculpas a
todos. Não foi minha intenção. Eu...
--Não precisa, Churumela!
Você está bem?
--Estou sim! Obrigado por
perguntar, Gui.
Guilherme é um fofo e merece
algumas linhas de descrição. Estudamos juntos, há anos, desde a alfabetização,
eu acho. Mas só nos tornamos amigos quando meu pai morreu. Gui me deu a maior força nas tarefas de casa e nos
trabalhos durante meu período de luto. Ele ia ao meu apartamento quase todos os
dias para explicar as lições e nunca usou sua super inteligência como desculpa
para arrogância. Não é bonito nem feio. Acho ele normal. Quer dizer, normal?
Não! Ninguém com uma inteligência como a dele pode ser normal. Parece que ele
carrega um pendrive na cabeça. Tem cabelos de cachinhos , ruivos, e usa um
óculos redondo que esconde seus olhos grandes e verdes. É magrelo, alto e meio
desengonçado. Bem...se não é bonito nem feio nem normal...só sobrou estranho.
Isso! É isso! Gui é estranho , mas um estranho tão fofo que vira normal na
escala da beleza! Eu me enrolei muito ou deu pra entender o que quis dizer?
--Depois de seus olhos
virarem dois holofotes violetas, agora deu pra querer visitar as profundezas do
mar? Lá é bem escuro, talvez seus olhos tenham alguma serventia.
--Já chega, Gisela!
---gritou Gustavo estranhamente alterado--Combinamos de não tocar nesse
assunto. Já expliquei que o que houve ontem, não foi nada demais. Olhos
violetas são raros e em contato com o sol refletem um brilho diferente.
--Na verdade, Gustavo, não
vi isso em livro nenhum. Não há respaldo científico pra essa explicação,
inclusive, andei pesquisando ....
--Por favor, Gui!--pediu,
educadamente, Gustavo.
--Está bem. Vamos deixar
isso pra lá. Inclusive o incidente de hoje. Ouviu Gigi?
--Sim!--Respondeu a chata, a
contragosto.
Observei todo o empenho de
Gustavo em me proteger sem dizer nenhuma palavra. Era estranho o quanto se
importava comigo.
--Eu fiz um apanhado sobre
lendas folclóricas brasileiras. Poderíamos escolher essa vertente de trabalho.
Selecionaríamos algumas pra contar, detalhando os significados contidos nas
histórias, as suas origens, as diferentes versões etc.O que acham?—perguntou Gisela
olhando Gustavo e Guilherme com curiosidade. Para mim, dedicou sua indiferença,
mais uma vez, é claro.
--Acho que é uma excelente
ideia, Gisela!--enalteceu Guilherme com a boca cheia de biscoitos, cujo pote
sua gula não cansava de visitar.
--E quanto a você,
Churumela? O que trouxe pra nós?
--Peço desculpas de novo, gente!
Mas esqueci completamente da reunião. Ontem tive que hospedar uma velha amiga,
hoje trabalhei o dia inteiro e ainda aconteceram coisas que....-- parei antes
que as palavras traíssem meus segredos.
Gisela , com o dedo em
riste, se preparava pra me alvejar com todas as reclamações e humilhações
de seu arsenal de palavras envenenadas e belicosas , quando Guilherme se
adiantou.
--Haverá outros encontros,
Chu. Suas razões são fortes. Não precisa pedir desculpas. Ninguém aqui irá
culpá-la de nada. Ninguém!--falou olhando fixamente pra Gisela.
--Obrigada!--falei baixinho
em seu ouvido.
Ele me ofereceu uma
piscadela.
--E o que trouxe pra nós, Guilherme?--perguntou
Gisela,a pedante.
--Bem, eu acho que
poderíamos falar sobre lendas universais famosas, consagradas por filmes,
livros e extenuamente discutidas ao longo da história.
--Gostei da ideia, Gui!--disse
Gustavo, que não tirava os olhos de mim.
--Eu também!-- resolvi
finalmente falar em defesa do meu defensor da noite.
Gigi ficou encolerizada com
a aprovação do grupo à ideia de Guilherme.
--Irão preferia a ideia dele
à minha?
--Não dissemos isso, Gigi.
Podemos até juntar as ideias e fazer algo bem bacana. Hoje é apenas a primeira
reunião. Não há razão pra se sentir preterida.--As palavras doces de Gustavo
eram suficientes pra amansar qualquer um, inclusive a bruxa da Gisela. Ops,
bruxa não! Porque isso seria ofender minha amiga Paulinha. Cobra é um
substantivo que cabe perfeitamente a Gisela como adjetivo.
--E sobre quais lendas
pesquisou?--Perguntou Gisela mais calma.
--Ah, várias!
Guilherme, entusiasmado, pegou
uma pilha de papéis e começou a ler uma lista de títulos, alguns conhecidos
outros nem tanto aos meus ouvidos.
--Hum...Vejamos o que tenho
aqui: A lenda de Atlântida, de Robin Hood,do Rei Artur e os cavaleiros da
Távola Redonda,da pedra filosofal, do...
--Espere, Guilherme!--ao
escutar o último título, fui corroída por uma curiosidade ácida.
--O que foi,Churumela?
--Do que se trata essa pedra
filosofal?
--É a pedra dos alquimistas.
Aquela capaz de transformar qualquer metal em ouro e de produzir um elixir que
confere a vida eterna.
Ao ouvir sobre a história da
pedra, lâmpadas de perguntas se acenderam em minha cabeça: E se existir mesmo um anel que transforma o metal? E se a lenda estiver
errada e o anel transformar o metal em gelo em vez de ouro? E esse elixir? Por sinal, o que é um
elixir, hein? Hum... essa coisa, o elixir, torna a pessoa imortal? Mas como? Não
é possível! Só pode ser mesmo uma lenda! Será?!
--Churumela, acorda! Presta
atenção! Parece que tá no mundo da lua—gritou o interruptor que apagou meus
minutos de divagações, Gisela.
--Gui, o que é elixir? –perguntei
de supetão.
--Um espécie de bebida, porção
mágica. Por que, Churumela?
Olhei fixamente o anel por
alguns segundos, hipnotizada por sua beleza.
--Por nada, por nada....
CONTINUA.....
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