A noite quente transpirava.
Depois de dias sem chuvas, as primeiras gotas de água desenharam cortinas nas
janelas. Sob meu olhar curioso, Guilherme continuou a explicação.
--Segundo a lenda, a pedra
filosofal foi criada por alquimistas com dois objetivos: A transmutação e a
imortalidade da alma. Ela é capaz de tranformar qualquer metal em ouro e
de produzir o elixir da longa vida, uma bebida que torna imortal aquele que a
bebe. É tudo que sei a respeito. Vários livros e filmes foram criados em torno
dessa história.
--Há alguma descrição de
como ela seria?
--Ah, Chu...ela já foi
descrita de mil formas diferentes.
Gustavo parecia nervoso com
as explicações de Guilherme. Não parava de olhar o anel em meu dedo.
--Por que a curiosidade ,Chu
? É só uma lenda! Essa pedra não existe. Ainda bem! Imagine só! Aquele que a
possuir teria o poder de um deus!--falou Guilherme.
Ou
de uma deusa—pensei enquanto olhava para o anel enfeitiçada por seu mistério e
beleza.
--Que tal mudarmos um pouco
de assunto?-- sugeriu Gustavo com certa inquietação.
Três batidas pausadas na
porta de madeira ecoaram no silêncio da sala.
--Está esperando mais
alguém, Gustavo?--perguntou Gigi destilando seu ciúme.
--Não! Não costumo receber
visitas! Talvez tenha sido o barulho do vento.
Dessa vez, seis batidas
rápidas na porta de madeira ecoaram na tensão da sala.
--Acho que o vento está com
pressa de entrar, Gustavo.--ironizou Gui.
Finalmente, pra resolver o
mistério, bastaram três latidos.
--É o Xadrez, meu cachorro!
Gustavo, abra a porta!Depressa!--ordenei apressada.
Gisela se escondeu atrás de
Gustavo cheia de segundas intenções. Gui encheu a boca de biscoitos pra
alimentar a ansiedade que devorava seu estômago ( notou alguma semelhança dele com
minha amiga Paulinha?). A mim, restou abrir a porta para que a curiosidade
saísse e entrasse a surpresa ao ver um rosto e um focinho bem familiares
aos meus olhos esquisitos.
--Xadrez?Paulinha? O que
fazem aqui?
Xadrez pulou em cima de mim,
cheirou um por um todos na sala, demorando um pouco mais em Gigi. Logo em
seguida, deu uma bela mijada nos seus sapatos camocim pretos, comprados em
uma recente viagem a Paris. Foi a primeira vez que senti orgulho dos maus modos
de Xadrez. Depois de seu quente e molhado espetáculo de apresentação, ele se
ocupou de explorar cada cômodo da casa farejando o cheiro de segredos ( e de comida, claro).
--Churumela, você está
bem?--perguntou Paulinha, toda molhada,me dando um abraço bem forte e examinando
com olhos cirúrgicos cada parte de meu corpo.
--E por que não estaria? Como
chegou até aqui? Eu não lhe dei o endereço dessa casa.
--Xadrez reconhece seu
cheiro a qualquer distância, tá lembrada?--disse Paulinha baixinho em meu
ouvido.
--Churumela, não vai nos apresentar
a sua amiga?--perguntou Gisela cravando seu olhar de réptil em Paulinha.
Ah, leitor! Acabei de
lembrar que não te falei como conheci a cobra Gigi.Vamos lá... Antes de
estudarmos juntas, Gisela frequentava a academia Ritmos de Dona Margarida.
Sempre foi muito invejosa. Nas apresentações de dança, disputava as posições de
destaque e suas intrigas e fofocas já causaram muita confusão seja nas salas de
dança. Dois anos depois, ela se matriculou no meu colégio e desde então
estudamos juntas. Como ela é ? Escamosa, fria e úmida! Brincadeirinha. Ela até
é bonitinha, tenho que admitir. Tem cabelos negros, esbelta, branquela,
estatura mediana, olhos caramelados, pequenos e puxadinhos. A sua família tem
ascendência japonesa. Mas do modo respeitoso e educado dos japinhas, Gigi não
aprendeu nadinha. Ela sempre usa um colar de pérolas brancas e negras, herança
de sua avó, que ganhou quando completou quinze anos. Agora chega de falar da naja,
vamos à história!
--Paulinha, entre e fique à
vontade! Eu sou Gustavo, o dono da casa e estes são Guilherme e Amanda. Nós
estávamos conversando sobre lendas. Temos um trabalho para apresentar na escola
e você chegou bem no meio da discussão.---falou Gustavo como bom anfitrião.
--Eu agradeço a
hospitalidade, mas eu e Churumela já estamos de saída.--Disse Paulinha me
puxando pelo braço. Ela estava nervosa.
--Paulinha, o que está
acontecendo?
--Churumela, eu explico mais
tarde. Mas agora temos que ir ao casarão amarelo.
--Gustavo, onde posso
conversar a sós com minha amiga?
--Pode conversar no meu
quarto lá em cima. É o primeiro à esquerda. Tem toalhas secas e...
--Obrigada! Será só por
alguns minutos. Paulinha, vamos!
--Churumela...
--Paulinha!
--Enquanto isso, iremos prosseguir
a reunião sem você!--falou Gigi não
disfarçando o prazer que sentia em me excluir, mas não dei importância.
Eu e Paulinha subimos a
escadaria e nos deparamos com um corredor. Entramos na primeira
porta à esquerda, tal como havia orientado Gustavo. O quarto dele
parecia um imenso aquário. Quadros com imagens de praias, peixes e mar
decoravam as paredes. A cama era feita daqueles colchões d´água que nos fazem
lembrar dos pula-pulas da infância, uma época não tão distante assim. Havia
conchas de todos os tipos e tamanhos penduradas em prateleiras que faziam
companhia a embarcações talhadas em madeira e outras contidas em
pequenas garrafas de vidro.
--Paulinha, você quer me
dizer por que está tão inquieta?
--Chu, você está em perigo!
--Já me disse isso. Que tal
pularmos para parte que você explica por que estou em perigo?
--O anel....
--Certo! O que tem o anel?
--Eu estava indo pra casa
quando vi a luz azul no céu. Churumela, a luz partiu do anel, não foi?
--Sim, como você sabe?
--Eu não sou a pessoa mais
indicada pra te explicar. Vamos ao casarão e o Sr. Astróbilo lhe
contará tudo.
--Paulinha, eu não saio
daqui enquanto não disser o que sabe.
--Você quando cisma é uma
mula mesmo, hein?
--E acabo de empacar! Comece!
Paulinha sentou na cama,
tomou um pouco de ar e começou a breve explicação.
--A luz azul é a luz dos
viajantes perdidos. Deve estar lembrada dela pois há um pequeno ponto de luz em
sua cabeceira de cama no castelo Largus e a usamos para iluminar nosso caminho
quando estivemos na Floresta Negra.
--Sim, é claro que me
lembro! Ela literalmente não saia de minha cabeça.
--Pois bem! Agora venha até
a janela.
Aproximei-me da janela e
tomei um susto com a arte pintada no céu. Entre estrelas brancas, havia muitas
estrelas azuis, nunca vistas no mundo Opaco.
--Foi o anel que fez isso?
--Só há uma pedra em todos
os mundos capaz de tornar as estrelas azuis tal como diz a primeira profecia.
--Profecia? Do que você está
falando ,Paulinha? Isso tá parecendo papo de bruxa!
De repente, todas as luzes
da casa se apagaram.
--O que foi isso?--perguntei
assustada.
--Churumela, ela está aqui!
--Ela quem, Paulinha?
--Melina!
CONTINUA.....
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