"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

CAP.8 PINTANDO ESTRELAS



A noite quente transpirava. Depois de dias sem chuvas, as primeiras gotas de água desenharam cortinas nas janelas. Sob meu olhar curioso, Guilherme continuou a explicação.
--Segundo a lenda, a pedra filosofal foi criada por alquimistas com dois objetivos: A transmutação e a imortalidade da alma. Ela é capaz de tranformar qualquer metal em ouro e de produzir o elixir da longa vida, uma bebida que torna imortal aquele que a bebe. É tudo que sei a respeito. Vários livros e filmes foram criados em torno dessa história.
--Há alguma descrição de como ela seria?
--Ah, Chu...ela já foi descrita de mil formas diferentes.
Gustavo parecia nervoso com as explicações de Guilherme. Não parava de olhar o anel em meu dedo.
--Por que a curiosidade ,Chu ? É só uma lenda! Essa pedra não existe. Ainda bem! Imagine só! Aquele que a possuir teria o poder de um deus!--falou Guilherme.
Ou de uma deusa—pensei enquanto olhava  para o anel enfeitiçada por seu mistério e beleza.
--Que tal mudarmos um pouco de assunto?-- sugeriu Gustavo com certa inquietação.
Três batidas pausadas na porta de madeira ecoaram no silêncio da sala.
--Está esperando mais alguém, Gustavo?--perguntou Gigi destilando seu ciúme.
--Não! Não costumo receber visitas! Talvez tenha sido o barulho do vento.
Dessa vez, seis batidas rápidas na porta de madeira ecoaram na tensão da sala.
--Acho que o vento está com pressa de entrar, Gustavo.--ironizou Gui.
Finalmente, pra resolver o mistério, bastaram três latidos.
--É o Xadrez, meu cachorro! Gustavo, abra a porta!Depressa!--ordenei apressada.
Gisela se escondeu atrás de Gustavo cheia de segundas intenções. Gui encheu a boca de biscoitos pra alimentar a ansiedade que devorava seu estômago ( notou alguma semelhança dele com minha amiga Paulinha?). A mim, restou abrir a porta para que a curiosidade saísse e entrasse a surpresa ao ver um rosto e um focinho bem familiares aos meus olhos esquisitos.
--Xadrez?Paulinha? O que fazem aqui?
Xadrez pulou em cima de mim, cheirou um por um todos na sala, demorando um pouco mais em Gigi. Logo em seguida, deu uma bela mijada nos seus sapatos camocim pretos, comprados em uma recente viagem a Paris. Foi a primeira vez que senti orgulho dos maus modos de Xadrez. Depois de seu quente e molhado espetáculo de apresentação, ele se ocupou de explorar cada cômodo da casa farejando o cheiro de  segredos ( e de comida, claro).
--Churumela, você está bem?--perguntou Paulinha, toda molhada,me dando um abraço bem forte e examinando com  olhos cirúrgicos cada parte de meu corpo.
--E por que não estaria? Como chegou até aqui? Eu não lhe dei o endereço dessa casa.
--Xadrez reconhece seu cheiro a qualquer distância, tá lembrada?--disse Paulinha baixinho em meu ouvido.
--Churumela, não vai nos apresentar a sua amiga?--perguntou Gisela cravando seu olhar de réptil em Paulinha.

Ah, leitor! Acabei de lembrar que não te falei como conheci a cobra Gigi.Vamos lá... Antes de estudarmos juntas, Gisela frequentava a academia Ritmos de Dona Margarida. Sempre foi muito invejosa. Nas apresentações de dança, disputava as posições de destaque e suas intrigas e fofocas já causaram muita confusão seja nas salas de dança. Dois anos depois, ela se matriculou no meu colégio e desde então estudamos juntas. Como ela é ? Escamosa, fria e úmida! Brincadeirinha. Ela até é bonitinha, tenho que admitir. Tem cabelos negros, esbelta, branquela, estatura mediana, olhos caramelados, pequenos e puxadinhos. A sua família tem ascendência japonesa. Mas do modo respeitoso e educado dos japinhas, Gigi não aprendeu nadinha. Ela sempre usa um colar de pérolas brancas e negras, herança de sua avó, que ganhou quando completou quinze anos. Agora chega de falar da naja, vamos à história!
--Paulinha, entre e fique à vontade! Eu sou Gustavo, o dono da casa e estes são Guilherme e Amanda. Nós estávamos conversando sobre lendas. Temos um trabalho para apresentar na escola e você chegou bem no meio da discussão.---falou Gustavo como bom anfitrião.
--Eu agradeço a hospitalidade, mas eu e Churumela já estamos de saída.--Disse Paulinha me puxando pelo braço. Ela estava nervosa.
--Paulinha, o que está acontecendo?
--Churumela, eu explico mais tarde. Mas agora temos que ir ao casarão amarelo.
--Gustavo, onde posso conversar a sós com minha amiga?
--Pode conversar no meu quarto lá em cima. É o primeiro à esquerda. Tem toalhas secas e...
--Obrigada! Será só por alguns minutos. Paulinha, vamos!
--Churumela...
--Paulinha!
--Enquanto isso, iremos prosseguir a reunião sem você!--falou Gigi  não disfarçando o prazer que sentia em me excluir, mas não dei importância.
Eu e Paulinha subimos a escadaria e  nos deparamos com um corredor. Entramos na primeira porta à esquerda, tal como havia orientado Gustavo. O quarto dele parecia um imenso aquário. Quadros com imagens de praias, peixes e mar decoravam as paredes. A cama era feita daqueles colchões d´água que nos fazem lembrar dos pula-pulas da infância, uma época não tão distante assim. Havia conchas de todos os tipos e tamanhos penduradas em prateleiras que faziam companhia  a embarcações talhadas em madeira e outras contidas em pequenas garrafas de vidro.
--Paulinha, você quer me dizer por que está tão inquieta?
--Chu, você está em perigo!
--Já me disse isso. Que tal pularmos para parte que você explica por que estou em perigo?
--O anel....
--Certo! O que tem o anel?
--Eu estava indo pra casa quando vi a luz azul no céu. Churumela, a luz partiu do anel, não foi?
--Sim, como você sabe?
--Eu não sou a pessoa mais indicada pra te explicar. Vamos ao casarão e o Sr. Astróbilo lhe contará tudo.
--Paulinha, eu não saio daqui enquanto não disser o que sabe.
--Você quando cisma é uma mula mesmo, hein?
--E acabo de empacar! Comece!
Paulinha sentou na cama, tomou um pouco de ar e começou a breve explicação.
--A luz azul é a luz dos viajantes perdidos. Deve estar lembrada dela pois há um pequeno ponto de luz em sua cabeceira de cama no castelo Largus e a usamos para iluminar nosso caminho quando estivemos na Floresta Negra.
--Sim, é claro que me lembro! Ela literalmente não saia de minha cabeça.
--Pois bem! Agora venha até a janela.
Aproximei-me da janela e tomei um susto com a arte pintada no céu. Entre estrelas brancas, havia muitas estrelas azuis, nunca vistas no mundo Opaco.
--Foi o anel que fez isso?
--Só há uma pedra em todos os mundos capaz de tornar as estrelas azuis tal como diz a primeira profecia.
--Profecia? Do que você está falando ,Paulinha? Isso tá parecendo papo de bruxa!
De repente, todas as luzes da casa se apagaram.
--O que foi isso?--perguntei assustada.
--Churumela, ela está aqui!
--Ela quem, Paulinha?
--Melina!

CONTINUA.....

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