"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

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sábado, 3 de maio de 2014

CAP. 5 UM ENCONTRO COM MARILYN ( NÃO MONROE)

As minhas aulas sobre a língua e cultura Bakas acontecem todos os domingos na biblioteca do casarão amarelo. São ministradas pelo Sr. Astróbilo e duram o dia inteiro. Apesar de achá-las muito demoradas, pelo volume de informações e detalhes que o Sr. Astróbilo vomita em mim( vindos de seu cérebro que consegue digerir e reciclar cada palavra e tradição Bakas com uma velocidade invejável a qualquer ruminante mortal) , sou uma aluna aplicada. Estudo e leio todas as lições passadas pelo velho Saikó e adianto que não são poucas. Tentei várias vezes desistir até que desisti de desistir. A língua Baka é muito difícil! Imagine que uma palavra pode equivaler a uma expressão gigantesca ou a um simples artigo. Os significados das palavras, dos contos e tradições estão sujeitos a interpretações de sábios e antigos! A história de Bakía obedece à ditadura do bom senso e isso tem me deixado louca.
A melhor parte das aulas são os salgadinhos de queijo com goiabada que Madame Sophie oferece nos dois intervalos de quinze minutos cada. Eu vou repetir: Dois intervalos de quinze minutos para oito horas de estudos! Isso é um massacre intelectual, concorda? Nunca poderia imaginar que um velhinho, baixinho e com cara de Papai Noel pudesse ser tão parecido com o Peixotão quanto à disciplina espartana e ao costume de me dar broncas. Mas as semelhanças param por aí. Quando o cansaço, o desânimo e até mesmo a rebeldia insistem em convidar minha atenção pra uma fugidinha, sinto a dedicação, a disposição e o carinho, vindos do Sr. Astróbilo, prenderem minha atenção e inibirem qualquer tentativa de deserção, servindo-me como banquete, a luz do conhecimento. Talvez fosse melhor virar uma planta e viver de fotossíntese. E isso não é uma ironia, leitor! Certa vez, quando cochilei na aula de Palavras Encantadas, Sr. Astróbilo me disse: "Atenção presa, pensamentos livres, Churumela!" . Nossa ! Achei bonito isso. Coisa de Saikó , né?
Resolvi fazer o percurso a pé até à lanchonete e não pude deixar de pensar nas palavras de Paulinha.
Precisamos achar as quatro chaves? O que ela quis dizer com isso?
Paulinha provavelmente não queria que eu entendesse, senão não teria falado na língua Baka. Quanto mistério rondava a sua volta! A minha intuição dizia que alguma coisa estava acontecendo em Bakía e minha curiosidade, colocava-se a seu serviço como um bom detetive à procura do que não quer ser achado. Mergulhada em minhas dúvidas e suposições, não me dei conta de que já tinha chegado à Delícias da Carne até emergir bruscamente puxada pelos gritos estridentes do Peixotão e pelas correntes de água que saíam de sua boca na forma de saliva.
--Churumela, acho que a solução será comprar um relógio pra você!
--Vai me dar um de presente Peixotão?
--Não! Vou descontar do seu salário! Agora vá trabalhar! Como pode ver, a casa está cheia!
A lanchonete estava uma loucura!  Garçons e garçonetes equilibristas com pratos cheios de hambúrgueres, batatas-fritas, cachorros-quentes e refrigerantes prontos para saltar do pedestal santo das bandejas, em um suicídio obrigado, para o cemitério dos estômagos vazios daqueles clientes famintos. O som do óleo fritando as batatas e da chapa quente queimando os círculos de carne crua somava-se ao tinir de copos, em brindes de aniversário, ao som das mordidas que rasgavam o alface e ao trote dos empregados  indo de um lado para outro como um rebanho disciplinado sob as rédeas dos olhares atentos do vaqueiro Peixotão. Não consegui segurar o sorriso quando pensei que meu chefe se parecia mais com o boi do que com seu guia. E que seria mais bem colocado se me referisse ao olhar atento e não aos olhares atentos, uma vez que o Peixotão perdeu um olho pra cobrinha da Amazônia e a coitada perdeu a vida. Até hoje tenho pena da cobra! Ok... mas você já conhece essa história.
Após horas de intenso trabalho de braços e pernas, sentei o bumbum na cadeira e desejei que ficasse colado nela por uns cem anos. Fiquei contemplando o anel que Gustavo me deu por alguns instantes. Todos os clientes já tinham ido embora até mesmo o restante dos funcionários. Me debrucei sobre o balcão para descansar um pouco e fechei os olhos por deliciosos cinco minutos pois foi o máximo de tempo que o Peixotão me deu de trégua antes de me azucrinar.
--Churumeeeeeeela!
Meu nome deve ser doce para contrastar com o azedume da babinha dele e por isso adora pronunciá-lo tão frequentemente. Levantei a cabeça do balcão e não sei definir quem  estavam mais ácidos, se meus olhos ou minhas palavras.
--O que foi dessa vez, Peixotão?-- gritei mal-humorada.
--Acaba de chegar uma cliente. Vá atendê-la!
Virei de costas para me certificar de que não era uma brincadeira, mas que ingenuidade! Peixotão nunca brinca! Nem sei se ainda sorri, tamanho é o bigode que lhe encobre a boca tronxa.
Na última mesa encostada na parede, nos fundos da loja, havia uma mulher de aproximadamente  trinta anos, que trajava um vestido preto, de saia godê e com um belo decote que realçava seu busto volumoso. A jaqueta de couro complementava o visual. Tinha os cabelos ruivos e cacheados um pouco acima dos ombros. Usava botas pretas de cano alto. De longe, parecia bonita. Não pude ver seu rosto pois estava mascarado pelo hambúrguer impresso no cardápio do Delícias da Carne.
--Mas já estamos fechados, Peixotão. Meu turno acabou!-- protestei.
--Não podemos recusar clientes. Já que não foi pra casa como os outros, trate de fazer seu serviço!
--Isso é exploração!--falei baixinho enquanto me dirigia contrariada à mesa.
--Isso é capitalismo!--rebateu o patrão a reclamação do proletariado.
Diante da cliente, tirei meu caderninho de anotações e, sem levantar os olhos, perguntei o que desejava.
--Quero conversar com você, Churumela!
Deixei a caneta cair da minha mão ao escutar meu nome. Os olhos da estranha me fitavam sem pestanejar e ao encará-los, senti como se fossem dois abismos me convidando a explorá-los. Eram negros e frios no silêncio, mas adquiriam um brilho quente de malícia quando ela lançava o vapor doce de suas palavras sobre mim. O rosto da cliente misteriosa era muito bonito. Tinha um sinal pequeno próximo ao lábio superior, no lado direito, o que lhe conferia charme e um certo ar de sensualidade e sofisticação.
--Desculpe, o que disse?-- perguntei  na esperança de que o cansaço estivesse afetando não apenas meu humor, mas minha audição também.
--Disse que quero conversar com você, Churumela . Sente-se, por favor!
O Peixotão tinha ido arrumar as coisas na cozinha e , por isso, me atrevi a aceitar seu convite.
--Não posso conversar com clientes. Além disso, não me lembro de conhecê-la. Não está me confundindo com alguém?
--Churumela não é um nome comum!E olhos violetas são raríssimos, garota. Somente pessoas muito especiais, de tempos em tempos, nascem com eles. Estou certa?
Ela pegou a minha mão direita e imagens de fogo, árvores, vultos gritando súplicas vieram à minha mente. Retirei minha mão assustada. Mas ela a pegou de volta, prendendo-a sobre a mesa com força.
--Como conseguiu esse anel?
--Isso não te interessa! Agora me solte, senão ....
--Senão o quê? --gritou alterada. Seus olhos ficaram completamente negros. E tanto você como eu, leitor, já sabemos o que isso significa: Encrenca!
--Desculpe, não quis assustá-la! Meu nome é Melina! E vim aqui apenas para conhecê-la.--falou em tom mais afável e com olhos humanos, opacos.
--De onde você é Melina? Como sabe meu nome? E qual seu interesse nesse anel?
--Quantas perguntas! Preciso ir! Mas não se preocupe! Nos encontraremos em breve!
Melina se levantou da mesa e antes de sair da lanchonete deu o último toque de mistério ao encontro.
--A propósito, Churumela! Se está procurando uma lenda pra contar, por que não se informa sobre Hayo?
E como uma bruxa , a mulher ruiva desapareceu entre os rostos da multidão na rua.


CONTINUA.......

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