As minhas aulas sobre a língua
e cultura Bakas acontecem todos os domingos na biblioteca do casarão
amarelo. São ministradas pelo Sr. Astróbilo e duram o dia inteiro. Apesar
de achá-las muito demoradas, pelo volume de informações e detalhes que o Sr.
Astróbilo vomita em mim( vindos de seu cérebro que consegue digerir e reciclar
cada palavra e tradição Bakas com uma velocidade invejável a qualquer ruminante
mortal) , sou uma aluna aplicada. Estudo e leio todas as lições passadas pelo
velho Saikó e adianto que não são poucas. Tentei várias vezes desistir até que
desisti de desistir. A língua Baka é muito difícil! Imagine que uma palavra
pode equivaler a uma expressão gigantesca ou a um simples artigo. Os
significados das palavras, dos contos e tradições estão sujeitos a
interpretações de sábios e antigos! A história de Bakía obedece à ditadura do
bom senso e isso tem me deixado louca.
A melhor parte das aulas são
os salgadinhos de queijo com goiabada que Madame Sophie oferece nos dois
intervalos de quinze minutos cada. Eu vou repetir: Dois intervalos de
quinze minutos para oito horas de estudos! Isso é um massacre intelectual,
concorda? Nunca poderia imaginar que um velhinho, baixinho e com cara de Papai
Noel pudesse ser tão parecido com o
Peixotão quanto à disciplina espartana e ao costume de me
dar broncas. Mas as semelhanças param por aí. Quando o cansaço, o desânimo e
até mesmo a rebeldia insistem em convidar minha atenção pra uma fugidinha,
sinto a dedicação, a disposição e o carinho, vindos do Sr.
Astróbilo, prenderem minha atenção e inibirem qualquer tentativa de
deserção, servindo-me como banquete, a luz do conhecimento. Talvez fosse melhor
virar uma planta e viver de fotossíntese. E isso não é uma ironia, leitor! Certa
vez, quando cochilei na aula de Palavras Encantadas, Sr. Astróbilo me
disse: "Atenção presa, pensamentos livres, Churumela!" . Nossa !
Achei bonito isso. Coisa de Saikó , né?
Resolvi fazer o percurso a
pé até à lanchonete e não pude deixar de pensar nas palavras de Paulinha.
Precisamos
achar as quatro chaves? O que ela quis dizer com isso?
Paulinha provavelmente não
queria que eu entendesse, senão não teria falado na língua Baka. Quanto
mistério rondava a sua volta! A minha intuição dizia que alguma coisa estava
acontecendo em Bakía e minha curiosidade, colocava-se a seu serviço como um bom
detetive à procura do que não quer ser achado. Mergulhada em minhas dúvidas e
suposições, não me dei conta de que já tinha chegado à Delícias da Carne até
emergir bruscamente puxada pelos gritos estridentes do Peixotão e pelas
correntes de água que saíam de sua boca na forma de saliva.
--Churumela, acho que a
solução será comprar um relógio pra você!
--Vai me dar um de presente
Peixotão?
--Não! Vou descontar do seu
salário! Agora vá trabalhar! Como pode ver, a casa está cheia!
A lanchonete estava uma
loucura! Garçons e garçonetes equilibristas com pratos cheios de
hambúrgueres, batatas-fritas, cachorros-quentes e refrigerantes prontos para
saltar do pedestal santo das bandejas, em um suicídio obrigado, para
o cemitério dos estômagos vazios daqueles clientes famintos. O som do óleo
fritando as batatas e da chapa quente queimando os círculos de carne crua
somava-se ao tinir de copos, em brindes de aniversário, ao som das mordidas que
rasgavam o alface e ao trote dos empregados indo de um lado para outro
como um rebanho disciplinado sob as rédeas dos olhares atentos do vaqueiro
Peixotão. Não consegui segurar o sorriso quando pensei que meu chefe se parecia
mais com o boi do que com seu guia. E que seria mais bem colocado se me
referisse ao olhar atento e não aos olhares atentos, uma vez que o
Peixotão perdeu um olho pra cobrinha da Amazônia e a coitada perdeu a vida. Até
hoje tenho pena da cobra! Ok... mas você já conhece essa história.
Após horas de intenso
trabalho de braços e pernas, sentei o bumbum na cadeira e desejei que ficasse
colado nela por uns cem anos. Fiquei contemplando o anel que Gustavo me deu por
alguns instantes. Todos os clientes já tinham ido embora até mesmo o restante
dos funcionários. Me debrucei sobre o balcão para descansar um pouco e
fechei os olhos por deliciosos cinco minutos pois foi o máximo de tempo que o
Peixotão me deu de trégua antes de me azucrinar.
--Churumeeeeeeela!
Meu nome deve ser doce para
contrastar com o azedume da babinha dele e por isso adora pronunciá-lo tão
frequentemente. Levantei a cabeça do balcão e não sei definir quem
estavam mais ácidos, se meus olhos ou minhas palavras.
--O que foi dessa vez,
Peixotão?-- gritei mal-humorada.
--Acaba de chegar uma
cliente. Vá atendê-la!
Virei de costas para me
certificar de que não era uma brincadeira, mas que ingenuidade! Peixotão nunca
brinca! Nem sei se ainda sorri, tamanho é o bigode que lhe encobre a boca
tronxa.
Na última mesa encostada na
parede, nos fundos da loja, havia uma mulher de aproximadamente
trinta anos, que trajava um vestido preto, de saia godê e com um belo decote que
realçava seu busto volumoso. A jaqueta de couro complementava o visual. Tinha
os cabelos ruivos e cacheados um pouco acima dos ombros. Usava botas
pretas de cano alto. De longe, parecia bonita. Não pude ver seu rosto
pois estava mascarado pelo hambúrguer impresso no cardápio do
Delícias da Carne.
--Mas já estamos fechados,
Peixotão. Meu turno acabou!-- protestei.
--Não podemos recusar
clientes. Já que não foi pra casa como os outros, trate de fazer seu
serviço!
--Isso é exploração!--falei
baixinho enquanto me dirigia contrariada à mesa.
--Isso é capitalismo!--rebateu
o patrão a reclamação do proletariado.
Diante da cliente, tirei meu
caderninho de anotações e, sem levantar os olhos, perguntei o que desejava.
--Quero conversar com você,
Churumela!
Deixei a caneta cair da
minha mão ao escutar meu nome. Os olhos da estranha me fitavam sem pestanejar
e ao encará-los, senti como se fossem dois abismos me convidando a
explorá-los. Eram negros e frios no silêncio, mas adquiriam um brilho
quente de malícia quando ela lançava o vapor doce de suas palavras
sobre mim. O rosto da cliente misteriosa era muito bonito. Tinha um sinal
pequeno próximo ao lábio superior, no lado direito, o que lhe conferia charme e
um certo ar de sensualidade e sofisticação.
--Desculpe, o que disse?--
perguntei na esperança de que o cansaço estivesse afetando não apenas meu
humor, mas minha audição também.
--Disse que quero conversar
com você, Churumela . Sente-se, por favor!
O Peixotão tinha ido arrumar
as coisas na cozinha e , por isso, me atrevi a aceitar seu convite.
--Não posso conversar com
clientes. Além disso, não me lembro de conhecê-la. Não está me confundindo com
alguém?
--Churumela não é um nome
comum!E olhos violetas são raríssimos, garota. Somente pessoas muito especiais,
de tempos em tempos, nascem com eles. Estou certa?
Ela pegou a minha mão
direita e imagens de fogo, árvores, vultos gritando súplicas vieram à minha
mente. Retirei minha mão assustada. Mas ela a pegou de volta, prendendo-a sobre
a mesa com força.
--Como conseguiu esse anel?
--Isso não te interessa! Agora
me solte, senão ....
--Senão o quê? --gritou
alterada. Seus olhos ficaram completamente negros. E tanto você como eu,
leitor, já sabemos o que isso significa: Encrenca!
--Desculpe, não quis
assustá-la! Meu nome é Melina! E vim aqui apenas para conhecê-la.--falou em tom
mais afável e com olhos humanos, opacos.
--De onde você é Melina? Como
sabe meu nome? E qual seu interesse nesse anel?
--Quantas perguntas! Preciso
ir! Mas não se preocupe! Nos encontraremos em breve!
Melina se levantou da mesa e
antes de sair da lanchonete deu o último toque de mistério ao encontro.
--A propósito, Churumela! Se
está procurando uma lenda pra contar, por que não se informa sobre Hayo?
E como uma bruxa , a mulher
ruiva desapareceu entre os rostos da multidão na rua.
CONTINUA.......
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