Cheguei em casa exausta e
cheias de perguntas naquela noite. Paulinha dormia no quarto ao lado do meu e
Xadrez veio me recepcionar à porta com seu rabo espanador, que golpeava o ar em
vai-e-véns frenéticos, e com suas lambidas abundantes de saliva, que tanto me
fazem lembrar de uma característica peculiar do meu chefe Peixotão. A noite
estava insuportavelmente quente. Não me lembro de ter tido outra parecida nos
últimos seis meses. Peguei um pouco de água na geladeira e sentei no sofá,
enquanto irrigava minha garganta árida. Água se tornou uma bebida escassa
e muito cara no mundo Opaco, digna de degustação. Xadrez sentou ao
meu lado e colocou a cabeça sobre meu colo me perguntando com seus olhos,
grandes e espertos, os quais os meus, cansados e semicerrados, não conseguiam
entender, muito menos, responder.
Estava
em um grande navio cheio de velas, parecidas com aquelas embarcações antigas de
filmes de piratas, mas ele estava sem tripulantes, totalmente
vazio. Caminhei pelo convés e, ao me esgueirar para admirar o mar, tomei
um susto: O navio se deslocava sobre um deserto de areia. Fiquei tão atordoada
que não percebi que havia chegado companhia: Um homem alto, com capuz negro, se
aproximou de mim. Senti cada músculo de meu corpo enrijecer. Fiquei imóvel, com
o olhar fixo para o horizonte de areia e a respiração ofegante. Não pude ver o
rosto do homem, mas reconheci a voz. Era Dakan!
--Achou
que iria se livrar de mim, Churumela?
O
seu hálito gélido em meu pescoço era tão frio quanto suas palavras em meus
ouvidos.
--Eu
acho que você tem um bafo pior que o da Milka!--provoquei.
--Vamos
ver até quando vai resistir essa ironia arrogante quando eu acordar o exército
das almas perdidas.
Dakan
desapareceu na escuridão da própria sombra. Eu o procurei por todo o navio, mas
ao invés do rei dos Firenos, encontrei centenas de caveiras que se levantaram
das areias e atacaram o navio, munidas de espadas flamejantes contra mim.
Acordei assustada com as
mãos sujas de areia e com o medo me desejando bom dia. Já era de manhã e
Paulinha, que preparava o café, veio ao meu encontro.
--Chu, o que
houve?--perguntou Paulinha preocupada.
--Paulinha, olhe bem pra mim
e diga: O que está acontecendo em Bakía?
--Chu, eu peço que tenha um
pouco mais de paciência. Logo iremos nos encontrar com o Sr. Astróbilo e ele
lhe explicará tudo.
--Por que tanto mistério? Será
que ainda não perderam essa mania de esconder as coisas de mim?
Peguei minha inseparável
mochila azul, que carregava metade de minha vida e histórias dentro, e fui pra
academia Ritmos. Bati a porta com força e raiva (não necessariamente nessa
ordem) , saindo sob os protestos de Paulinha, que não me impediu. Como Dona
Margarida havia ficado em Bakía, assumi as aulas na academia Ritmos, uma forma
de aumentar o orçamento e de manter viva uma das poucas fontes de alegria
que ainda tinha: a dança.
Era muito cedo e os alunos
demorariam a chegar. Tomei um banho demorado no vestuário e preparei um café
bem quente na copa da academia, cuja dispensa mantinha sempre guarnecida para
os vários lanchinhos aos quais me permitia durante o dia.
A primeira aula do dia seria
de ballet clássico. Coloquei minhas sapatilhas e fiz os rotineiros exercícios
de aquecimento sem música. Depois sentei no meio do salão e fiquei a esperar os
alunos enquanto conversava com minhas lembranças. Ao olhar minha imagem
solitária na frente dos espelhos fixados à parede, recordações da dança
com Kristian vieram à mente, e em seguida, lembrei de Rafael e de nossa dança
no Lago Claro. Comecei então a chorar!
A porta se abriu e eu achei
que fosse mais um aluno. Enxuguei as lágrimas, me pus de pé e desenhei um
sorriso tímido. Era Paulinha,vestida para dançar! E com ela veio a música
também . Começamos a dançar numa harmonia, digna de meses de ensaio, que nunca
aconteceram. Ao final, ofegantes e exaustas, caímos deitadas no chão de
carvalho e nos olhamos em silêncio por segundos que pareceram uma
eternidade.
--Ele pergunta sobre mim
Paulinha?
Paulinha demorou a responder
procurando o melhor eufemismo pra sua resposta.
--Depois que você foi
embora, Rafael foi poucas vezes a Bakía para conversar com Kailus. Mas nunca o
ouvi perguntar de você, Chu!
Como pode constatar, a
resposta veio natural, sem maquiagens.
Senti suas palavras entrarem
em meus ouvidos como agulhas a alinhavar todas as lembranças que guardava de
Rafael e reuni-las em um nó que me desceu até à garganta. Olhei demoradamente
para o anel que Gustavo me deu e pensei na proposta que havia feito. Tentei
tirá-lo. Não consegui. Tentei chorar. Mas os primeiros alunos começaram a
chegar. Levantei e estendi a mão a Paulinha para que fizesse o mesmo.
--Vamos, amiga! Me ajude a
colocar estes alunos pra dançar!
O dia transcorreu sem
grandes novidades. Primeiro, foram as aulas de ballet clássico, depois as
de tango e bolero e, por último, as de salsa. Uma aluna novata torceu o tornozelo
na aula de ballet , mas nada que as mãos mágicas de Paulinha não pudessem
curar. Por algumas horas, esqueci das confusões e mistérios do dia anterior, do
sonho com Dakan e o mais importante, da indiferença de Rafael a mim. Durante
vários momentos, tive o ímpeto de comentar com Paulinha sobre a visita da Marilyn
ruiva estranha e o sonho, mas preferi descobrir o que eles queriam me dizer
sozinha. Afinal, era quase certo que ela não iria me responder mesmo.
Estávamos fechando a
academia quando lembrei da reunião de grupo marcada na casa de Gustavo. Faltavam
apenas trinta minutos pra o horário marcado .
--Paulinha, tenho um
trabalho pra fazer hoje à noite na casa de um amigo.
--Agora?
--Sim! E pra variar, vou
chegar atrasada! Quer ir comigo?
--Não posso, Chu. Preciso
resolver umas coisas.
--Que coisas?
--Ah...já sei! Coisas
secretas e que portanto não posso saber.
--Não pode saber ainda.
--Se é assim, você fecha a
academia pra mim? Eu vou direto pra lá, sem passar em casa. O pior é que não
pesquisei nada sobre lendas. Vou chegar lá de mãos abanando. Sabe de alguma
lenda que eu possa contar, Paulinha?--perguntei com a intenção de conseguir
alguma informação sobre Hayo , nome referido
por Melina Monroe.
--Não! Sinto muito, amiga!
Talvez o Sr. Astróbilo possa ajudá-la amanhã.--respondeu Paulinha sem mostrar
interesse pela pergunta.
--É...Talvez tenha razão. Não
me espere acordada! Acho que vou chegar tarde!
--Tenha cuidado, Chu!
--Você sabe que nunca tenho,
Paulinha!
Não queria chegar atrasada à
reunião. Já bastava o fato de não ter pesquisado nenhum material para a
discussão de grupo, razão que me renderia a noite inteira com Gisela
lembrando a cada cinco minutos o quanto fui irresponsável e blábláblá. Decidi
tomar um atalho pra casa de Gustavo. O caminho mais rápido era pelas ruas do
Cais do Porto, onde estavam instalados muitos armazéns, que hospedavam
mercadorias de várias partes do mundo que chegavam à cidade. As ruas
estavam desertas e eram pouco iluminadas. Poucos postes de luz amarela ,
venerada por uma ciranda de mosquitos, feriam a escuridão do caminho, que
tentava me engolir a cada passo. Apesar de não ser boa em matemática,
pelos meus cálculos, em quinze minutos chegaria à casa de Gustavo. Entrei
em um beco escuro, o atalho do atalho, para diminuir esse tempo pela metade.
Péssima ideia!
--Ora, ora! Vejam, rapazes,
o que temos aqui: Uma boneca de quarto visitando os ratos do porão!--disse um
rapaz alto, forte, de minha idade, com um chapéu branco, estilo panamá,
vestido de calça jeans e camiseta branca justa ao corpo. Tinha olhos malandros
e pela recepção de boas-vindas, presumi que devia ter algum grau de instrução.
Em sua companhia, havia dois homens: um deles era baixinho e mais velho, com
barba por fazer, mascava chiclete o tempo todo e segurava uma barra de ferro na
mão. Usava tantas correntes de ouro e prata penduradas nos punhos e
pescoço, que parecia um mostruário de joalheria. O terceiro homem era
grande, barrigudo e completamente careca. Estava encostado na parede, brincando
de acender e apagar um isqueiro que jogava de uma mão para outra, enquanto me
olhava com o desejo salivante de um caçador apreciando a caça.
De longe, podia ver a praia
e a casa de Gustavo. Pena que em vez de uma pedra, encontrei três no meio do
caminho.
--Tem toda razão! Mas é uma
visita rápida pois a boneca aqui precisa ir àquela casa!--disse apontando pra
praia , que ficava às costas dos ratos do beco.
Não sei por que, mas minhas
palavras soaram engraçadas a ponto de provocar o riso entre meus " novos
amigos".
--Acho que vai ficar conosco
essa noite, mocinha! Estamos carentes de uma companhia tão agradável e bonita
como a sua.--disse o cara do chapéu branco.
Os três patetas me cercaram
e o maior deles, o careca barrigudo, prendeu meus braços às costas, impedindo
qualquer tentativa de fuga.
Estava encrencada! Estava
com medo! Mas o que achei pior, quando vi um dos três relógios que baixinho
usava, foi que estava atrasaaaaada!
O cara de chapéu branco se
aproximou de mim, tocando meus cabelos bem devagar. Parecia sentir prazer
com o misto de raiva e medo contidos em meus olhos. Deslizou as mãos sobre meu
rosto e ao tocar meus lábios, eu o mordi. Ah...e mordi com a força e vontade de
quem quer arrancar o último fio de carne do osso de uma coxinha de galinha.
--Sua vaca estúpida!
--Olhe! Já me chamaram de
mula, de anta, mas vaca é a primeira vez! Me soltem, seus idiotas!
Dei um pisão nos pés do
careca e sai correndo em direção à praia ,mas o baixinho se colocou à minha
frente me ameaçando com a barra de ferro nas mãos.
--Onde pensa que vai? Quero
esse anel azul que tem aí! Passe ele pra cá ou esmago seus dedos até
arrancá-lo!
Que agressividade! Por que
os baixinhos sempre são os mais invocados, hein?
O careca me agarrou
novamente e o cara de chapéu, com o polegar vermelho da mordida, me deu um tapa
na cara. Senti o calor da raiva que queimava em seus dedos e do ódio que
envenenava seus olhos.
--Péssima ideia, boneca! Não
devia ter me tratado tão mal. Agora me passe esse anel!
Deve estar se perguntando
por que a essa altura ainda não tinha usado meus super poderes de Lizka, leitor.
Porque, segundo o Sr.
Astróbilo, devo evitar ao máximo usá-los no mundo Opaco pois eles mexem com o
equilíbrio da natureza e isso traria sérias consequências. No mundo Opaco, não
há Princhis, Mandras,Falgós ou Azuks pra consertar as estripulias que costumo
fazer em Bakía. Além disso, ninguém pode descobrir sobre meus "olhos
brilhantes",caso contrário, viraria cobaia de pesquisas científicas da
Nasa ou atração de circo intinerante.
Por um breve momento,
esqueci das orientações do Sr. Astróbilo e quando estava prestes a provocar uma
ventania que varresse aqueles três ratos de perto de mim,algo inusitado
aconteceu.
--Nem que eu quisesse
poderia lhe dar esse anel! Ele está colado no meu dedo!
--Deixe que eu
faço esse favor pra você!--falou o baixinho, projeto de mostruário de
bijouteria.
Os outros dois vilões
assistiam a tudo com expectativa.
--Nãaaaaaaaao! Socooooorro!
Alguém me ajude!--gritei desesperada.
O baixinho tentou tirar o
anel, mas quando uma de suas pulseiras prateadas tocou a pedra azul...
--Mas o que é
isso?--Perguntou assustado o cara de chapéu branco.
As joias prateadas foram
congeladas e, logo em seguida, foi a vez do próprio ladrão baixinho, se tranformar
em um estátua de gelo.
--O que você fez com nosso
amigo?
--Vamos nos mandar daqui!
Os dois vilões correram aos
tropeços, assustados, me deixando sozinha no beco escuro com a estátua do
baixinho.
Me aproximei atônita, sem
compreender o que tinha acabado de acontecer. Achei que tudo pudesse ser um
daqueles "sonhos reais", como os que costumo ter. Precisava tocar pra
ver pois não confiava nos meus olhos.Com a mesma mão do anel, toquei a estátua gelada
e, instantaneamente, ela se quebrou em milhares de pedaços.
--O que foi que eu fiz?!
CONTINUA......
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