"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

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domingo, 4 de maio de 2014

CAP. 6 No meio do caminho havia três pedras, três patetas



Cheguei em casa exausta e cheias de perguntas naquela noite. Paulinha dormia no quarto ao lado do meu e Xadrez veio me recepcionar à porta com seu rabo espanador, que golpeava o ar em vai-e-véns frenéticos, e com suas lambidas abundantes de saliva, que tanto me fazem lembrar de uma característica peculiar do meu chefe Peixotão. A noite estava insuportavelmente quente. Não me lembro de ter tido outra parecida nos últimos seis meses. Peguei um pouco de água na geladeira e sentei no sofá, enquanto irrigava minha garganta árida. Água se tornou uma bebida escassa e muito cara no mundo Opaco, digna de degustação.  Xadrez sentou ao meu lado e colocou a cabeça sobre meu colo me perguntando com seus olhos, grandes e espertos, os quais os meus, cansados e semicerrados, não conseguiam entender, muito menos, responder.

Estava em um grande navio cheio de velas, parecidas com aquelas embarcações antigas de filmes de piratas, mas ele estava sem tripulantes, totalmente vazio. Caminhei pelo convés e, ao me esgueirar para admirar o mar, tomei um susto: O navio se deslocava sobre um deserto de areia. Fiquei tão atordoada que não percebi que havia chegado companhia: Um homem alto, com capuz negro, se aproximou de mim. Senti cada músculo de meu corpo enrijecer. Fiquei imóvel, com o olhar fixo para o horizonte de areia e a respiração ofegante. Não pude ver o rosto do homem, mas reconheci a voz. Era Dakan!
--Achou que iria se livrar de mim, Churumela?
O seu hálito gélido em meu pescoço era tão frio quanto suas palavras em meus ouvidos.
--Eu acho que você tem um bafo pior que o da Milka!--provoquei.
--Vamos ver até quando vai resistir essa ironia arrogante quando eu acordar o exército das almas perdidas.
Dakan desapareceu na escuridão da própria sombra. Eu o procurei por todo o navio, mas ao invés do rei dos Firenos, encontrei centenas de caveiras que se levantaram das areias e atacaram o navio, munidas de espadas flamejantes contra mim.

Acordei assustada com as mãos sujas de areia e com o medo me desejando bom dia. Já era de manhã e Paulinha, que preparava o café, veio ao meu encontro.
--Chu, o que houve?--perguntou Paulinha preocupada.
--Paulinha, olhe bem pra mim e diga: O que está acontecendo em Bakía?
--Chu, eu peço que tenha um pouco mais de paciência. Logo iremos nos encontrar com o Sr. Astróbilo e ele lhe explicará tudo.
--Por que tanto mistério? Será que ainda não perderam essa mania de esconder as coisas de mim?
Peguei minha inseparável mochila azul, que carregava metade de minha vida e histórias dentro, e fui pra academia Ritmos. Bati a porta com força e raiva (não necessariamente nessa ordem) , saindo sob os protestos de Paulinha, que não me impediu. Como Dona Margarida havia ficado em Bakía, assumi as aulas na academia Ritmos, uma forma de aumentar o orçamento e de manter viva uma das poucas fontes de alegria que ainda tinha: a dança.
Era muito cedo e os alunos demorariam a chegar. Tomei um banho demorado no vestuário e preparei um café bem quente na copa da academia, cuja dispensa mantinha sempre guarnecida para os vários lanchinhos aos quais me permitia durante o dia.
A primeira aula do dia seria de ballet clássico. Coloquei minhas sapatilhas e fiz os rotineiros exercícios de aquecimento sem música. Depois sentei no meio do salão e fiquei a esperar os alunos enquanto conversava com minhas lembranças. Ao olhar minha imagem solitária na frente dos espelhos fixados à parede, recordações da dança com Kristian vieram à mente, e em seguida, lembrei de Rafael e de nossa dança no Lago Claro. Comecei então a chorar! 
A porta se abriu e eu achei que fosse mais um aluno. Enxuguei as lágrimas, me pus de pé e desenhei um sorriso tímido. Era Paulinha,vestida para dançar! E com ela veio a música também . Começamos a dançar numa harmonia, digna de meses de ensaio, que nunca aconteceram. Ao final, ofegantes e exaustas, caímos deitadas no chão de carvalho e nos olhamos em silêncio por segundos que pareceram uma eternidade.
--Ele pergunta sobre mim Paulinha?
Paulinha demorou a responder procurando o melhor eufemismo pra sua resposta.
--Depois que você foi embora, Rafael foi poucas vezes a Bakía para conversar com Kailus. Mas nunca o ouvi perguntar de você, Chu!
Como pode constatar, a resposta veio natural, sem maquiagens.
Senti suas palavras entrarem em meus ouvidos como agulhas a alinhavar todas as lembranças que guardava de Rafael e reuni-las em um nó que me desceu até à garganta. Olhei demoradamente para o anel que Gustavo me deu e pensei na proposta que havia feito. Tentei tirá-lo. Não consegui. Tentei chorar. Mas os primeiros alunos começaram a chegar. Levantei e estendi a mão a Paulinha para que fizesse o mesmo.
--Vamos, amiga! Me ajude a colocar estes alunos pra dançar!

O dia transcorreu sem grandes novidades. Primeiro, foram as aulas de ballet clássico, depois as de tango e bolero e, por último, as de salsa. Uma aluna novata torceu o tornozelo na aula de ballet , mas nada que as mãos mágicas de Paulinha não pudessem curar. Por algumas horas, esqueci das confusões e mistérios do dia anterior, do sonho com Dakan e o mais importante, da indiferença de Rafael a mim. Durante vários momentos, tive o ímpeto de comentar com Paulinha sobre a visita da Marilyn ruiva estranha e o sonho, mas preferi descobrir o que eles queriam me dizer sozinha. Afinal, era quase certo que ela não iria me responder mesmo.
Estávamos fechando a academia quando lembrei da reunião de grupo marcada na casa de Gustavo. Faltavam apenas trinta minutos pra o horário marcado .
--Paulinha, tenho um trabalho pra fazer hoje à noite na casa de um amigo.
--Agora?
--Sim! E pra variar, vou chegar atrasada! Quer ir comigo?
--Não posso, Chu. Preciso resolver umas coisas.
--Que coisas?
--Ah...já sei! Coisas secretas e que portanto não posso saber.
--Não pode saber ainda.
--Se é assim, você fecha a academia pra mim? Eu vou direto pra lá, sem passar em casa. O pior é que não pesquisei nada sobre lendas. Vou chegar lá de mãos abanando. Sabe de alguma lenda que eu possa contar, Paulinha?--perguntei com a intenção de conseguir alguma informação sobre  Hayo , nome referido por Melina Monroe.
--Não! Sinto muito, amiga! Talvez o Sr. Astróbilo possa ajudá-la amanhã.--respondeu Paulinha sem mostrar interesse pela pergunta.
--É...Talvez tenha razão. Não me espere acordada! Acho que vou chegar tarde!
--Tenha cuidado, Chu!
--Você sabe que nunca tenho, Paulinha!

Não queria chegar atrasada à reunião. Já bastava o fato de não ter pesquisado nenhum material para a discussão de grupo, razão que me renderia a noite inteira com Gisela lembrando a cada cinco minutos o quanto fui irresponsável e blábláblá. Decidi tomar um atalho pra casa de Gustavo. O caminho mais rápido era pelas ruas do Cais do Porto, onde estavam instalados muitos armazéns, que hospedavam mercadorias de várias partes do mundo que chegavam à cidade. As ruas estavam desertas e eram pouco iluminadas. Poucos postes de luz amarela , venerada por uma ciranda de mosquitos, feriam a escuridão do caminho, que tentava me engolir a cada passo. Apesar de não ser boa em matemática, pelos meus cálculos, em quinze minutos chegaria à casa de Gustavo. Entrei em um beco escuro, o atalho do atalho, para diminuir esse tempo pela metade. Péssima ideia!
--Ora, ora! Vejam, rapazes, o que temos aqui: Uma boneca de quarto visitando os ratos do porão!--disse um rapaz alto, forte, de minha idade, com um chapéu branco, estilo panamá, vestido de calça jeans e camiseta branca justa ao corpo. Tinha olhos malandros e pela recepção de boas-vindas, presumi que devia ter algum grau de instrução. Em sua companhia, havia dois homens: um deles era baixinho e mais velho, com barba por fazer, mascava chiclete o tempo todo e segurava uma barra de ferro na mão. Usava tantas correntes de ouro e prata penduradas nos punhos e pescoço, que parecia um mostruário de joalheria. O terceiro homem era grande, barrigudo e completamente careca. Estava encostado na parede, brincando de acender e apagar um isqueiro que jogava de uma mão para outra, enquanto me olhava com o desejo salivante de um caçador apreciando a caça.
De longe, podia ver a praia e a casa de Gustavo. Pena que em vez de uma pedra, encontrei três no meio do caminho.
--Tem toda razão! Mas é uma visita rápida pois a boneca aqui precisa ir àquela casa!--disse apontando pra praia , que ficava às costas dos ratos do beco.
Não sei por que, mas minhas palavras soaram engraçadas a ponto de provocar o riso entre meus " novos amigos".
--Acho que vai ficar conosco essa noite, mocinha! Estamos carentes de uma companhia tão agradável e bonita como a sua.--disse o cara do chapéu branco.
Os três patetas me cercaram e o maior deles, o careca barrigudo, prendeu meus braços às costas, impedindo qualquer tentativa de fuga.
Estava encrencada! Estava com medo! Mas o que achei pior, quando vi um dos três relógios que baixinho usava, foi que estava atrasaaaaada!
O cara de chapéu branco se aproximou de mim, tocando meus cabelos bem devagar. Parecia sentir prazer com o misto de raiva e medo contidos em meus olhos. Deslizou as mãos sobre meu rosto e ao tocar meus lábios, eu o mordi. Ah...e mordi com a força e vontade de quem quer arrancar o último fio de carne do osso de uma coxinha de galinha.
--Sua vaca estúpida!
--Olhe! Já me chamaram de mula, de anta, mas vaca é a primeira vez! Me soltem, seus idiotas!
Dei um pisão nos pés do careca e sai correndo em direção à praia ,mas o baixinho se colocou à minha frente me ameaçando com a barra de ferro nas mãos.
--Onde pensa que vai? Quero esse anel azul que tem aí! Passe ele pra cá ou esmago seus dedos até arrancá-lo!
Que agressividade! Por que os baixinhos sempre são os mais invocados, hein?
O careca me agarrou novamente e o cara de chapéu, com o polegar vermelho da mordida, me deu um tapa na cara. Senti o calor da raiva que queimava em seus dedos e do ódio que envenenava seus olhos.
--Péssima ideia, boneca! Não devia ter me tratado tão mal. Agora me passe esse anel!
Deve estar se perguntando por que a essa altura ainda não tinha usado meus super poderes de Lizka, leitor.
Porque, segundo o Sr. Astróbilo, devo evitar ao máximo usá-los no mundo Opaco pois eles mexem com o equilíbrio da natureza e isso traria sérias consequências. No mundo Opaco, não há Princhis, Mandras,Falgós ou Azuks pra consertar as estripulias que costumo fazer em Bakía. Além disso, ninguém pode descobrir sobre meus "olhos brilhantes",caso contrário, viraria cobaia de pesquisas científicas da Nasa ou atração de circo intinerante.
Por um breve momento, esqueci das orientações do Sr. Astróbilo e quando estava prestes a provocar uma ventania que varresse aqueles três ratos de perto de mim,algo inusitado aconteceu.
--Nem que eu quisesse  poderia lhe dar esse anel! Ele está colado no meu dedo!
--Deixe que eu faço esse favor pra você!--falou o baixinho, projeto de mostruário de bijouteria.
Os outros dois vilões assistiam a tudo com expectativa.
--Nãaaaaaaaao! Socooooorro! Alguém me ajude!--gritei desesperada.
O baixinho tentou tirar o anel, mas quando uma de suas pulseiras prateadas tocou a pedra azul...
--Mas o que é isso?--Perguntou assustado o cara de chapéu branco.
As joias prateadas foram congeladas e, logo em seguida, foi a vez do próprio ladrão baixinho, se tranformar em um estátua  de gelo.
--O que você fez com nosso amigo?
--Vamos nos mandar daqui!
Os dois vilões correram aos tropeços, assustados, me deixando sozinha no beco escuro com a estátua do baixinho.
Me aproximei atônita, sem compreender o que tinha acabado de acontecer. Achei que tudo pudesse ser um daqueles "sonhos reais", como os que costumo ter. Precisava tocar pra ver pois não confiava nos meus olhos.Com a mesma mão do anel, toquei a estátua gelada e, instantaneamente, ela se quebrou em milhares de pedaços.
--O que foi que eu fiz?!

Uma corrente de ar invadiu o beco, dissipando o pó de gelo que eu tinha diante de meus pés, tornando fria uma noite que começou tão escura.


CONTINUA......

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