"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

sábado, 17 de maio de 2014

CAP.11 ERA UMA VEZ...



Escolhi a poltrona que ficava mais próxima da janela, onde eu podia contemplar, no céu, a arte que havia pintado. A chuva insistia em borrar meu quadro. Esforço vão! Talvez ela desse uma trégua se  soubesse que as estrelas azuis não eram de aquarela. Ou...talvez não.
Paulinha sentou-se ao lado do Sr. Astróbilo. A Princhi me olhava com a ansiedade dos curiosos e o Saikó com a paciência daqueles que desenvolveram um dos sentidos mais difíceis pra mim: ouvir. Respirei fundo e narrei tudo o que aconteceu nos últimos dois dias sem colocar vírgulas. Falei sobre o brilho inexplicável de meus olhos na aula da professora Cassandra, do anel de pedra azul que ganhei de um amigo, da visita de Melina Marilyn, no Delícias da Carne, do meu sonho com Dakan, dos três ladrões patetas e da estátua de gelo, da luz azul que o anel emitiu ao céu quando entrei no mar, do sequestro dos meus colegas de turma e,por último, do recado de fumaça na casa de Gustavo.
Ufaaaaa! Quando terminei, já não tinha mais fôlego, nem palavras e saliva. Apenas dúvidas, medo e culpa.
Paulinha me ofereceu um copo d'água, enquanto o Sr. Astróbilo se dirigiu a uma das prateleiras da estante próxima à lareira e retirou um livro grosso, de capa dura e de aspecto velho e empoeirado.
Ele se acomodou novamente em sua poltrona e repousou os óculos redondos em seus olhos cansados. Em seguida, passou as mãos no livro com o carinho de quem acorda um filho, deixando mostrar a orquídea violeta desenhada em sua capa.
--Gostaria de ouvir uma história, princesa?
--Claro que sim, Sr. Astróbilo.--Falei entusiasmada, sentando-me ao chão perto de sua cadeira.
Paulinha imitou meu gesto.
Sr. Astróbilo abriu o livro, tateando com seus dedos pequenos e enrugados os primeiros capítulos.
-- Muito bem, meninas! Então escutem com atenção a história que vou lhes contar.
-- Achei que soubesse de todas as histórias de Bakía, Sr. Astróbilo. Por que precisa desse livro?
--Ah, minha querida Lizka. Para  velhos como eu, cuja memória é escrita a grafite, a borracha do tempo não falha. Agora vejamos por onde posso começar....
--Que tal por : Era uma vez ?
Sr. Astróbilo sorriu da minha sugestão.
--Como quiser, princesa! Era uma vez, há milhares de anos, os quatro reinos viviam em guerra. Arenos, Marenos, Terrenos e Firenos disputaram entre si, durante séculos, o domínio sobre as terras, riquezas e conhecimentos uns dos outros. Bakía não existia. Sentimentos mesquinhos e egoístas dominavam o coração das pessoas. Mas um dia, as colinas Criskas fizeram uma revelação às Salinas: no mês de setembro, no dia que começasse a primavera e que uma estrela azul apontasse ao céu, nasceria uma criança de olhos violetas, que fundaria um novo reino, do qual seria a guia moral, chamado Bakía , que traria paz e harmonia às quatro Terras e cujo reflexo, um dia ,atingiria por completo outros mundos mais grosseiros, como o mundo Opaco, por exemplo. Essa criança teria todos os sentidos aguçados. Seria capaz de ver o futuro e o passado, de ler os pensamentos mais escondidos, de sentir o perfume das flores mais distantes, de escutar música onde para ouvidos comuns só havia silêncio. Ela seria o espelho capaz de refletir o que havia de melhor em cada  pessoa.
--As Salinas....nossa! Sinto saudades daquelas sete gêmeas e também das colinas de cristal. Acho que  quando voltar a Bakía...
--Shiii! Churumela, você quer ficar quieta e ouvir o resto da história?--advertiu Paulinha me cutucando.
--Ops! Desculpe, Sr. Astróbilo! Mas então? O que aconteceu quando todos souberam que nasceria uma criança de olho roxo, digo, violeta?
--Previsivelmente, os grandes reis não ficaram alegres com a notícia e passaram a vigiar todas as mulheres grávidas dentro de seus domínios. Muitas crianças foram mortas pela simples dúvida quanto a cor de seus olhos.
--Que horror!
--Sim, Paulinha! Foram tempos difíceis. Mas apesar de toda a vigilância e barbárie empregadas pelos Firenos, Terrenos, Marenos e Arenos, duzentos anos depois da primeira profecia das Salinas, uma mulher, esposa de um jardineiro, deu a luz a uma menina de olhos violeta , batizada como Laila.
--De qual reino pertenciam os pais da primeira Lizka, Sr. Astróbilo?--perguntou Paulinha.
--Até hoje ninguém sabe ao certo, minha querida Princhi. O que consta nas escrituras é que a criança nasceu  no meio da floresta na noite em que uma estrela azul, a mais brilhante já vista, caiu do céu em direção à escuridão das profundezas do mar, onde se transformou em uma linda e brilhante pedra azul em forma de espiral, resgatada mais tarde pelos Marenos. Sr. Astróbilo fez uma pequena pausa e olhou para o anel em meu dedo. Aliás, todos nós olhamos para o anel por inquietantes e silenciosos segundos. Em seguida, o velho Saikó continuou a explanação.
---E vejam que interessante: o primeiro berço da primeira Lizka foi feito de orquídeas violetas, encontradas nas árvores da floresta.
--Por isso o símbolo de Bakía é uma orquídea?
--Exatamente,princesa! Uma orquídea violeta.
--Como fizeram para não serem capturados, Sr. Astróbilo?--perguntou Paulinha ansiosa.
--A filha da líder das Princhis, uma jovem muito bonita e bondosa, chamada Aritza, encontrou o casal de camponeses e a criança na floresta. A partir de então, os três passaram a viver sob a proteção das feitiçeiras. Aritza, dois anos antes, havia dado a luz a um casal de gêmeos. O menino se chamava Hayo e logo se tornou o melhor amigo de Laila durante os anos em que ela viveu com as Princhis. A irmã de Hayo via essa amizade com olhos de ciúmes e inveja. Quando a Lizka completou dezesseis anos, seus sentidos ficaram mais fortes, assim como aconteceu com você, Churumela. -- Essa Aritza é a atual líder das Princhis, a que me batizou?
--Sim,princesa!
--Nossa! Mas então ela é bem velhinha hein? Velhinha não! Uma múmia!
--Churumela! –repreendeu-me Paulinha.
--Que foi? Vou apelidar Aritza de Matuzalena quando voltar a Bakía.
Subitamente, Paulinha ficou triste e pensativa.
--Achei que a história de Hayo fosse uma lenda, então quer dizer que as chaves e as profecias são verdadeiras?--perguntou Paulinha assustada.
--Peraí, de que chaves e profecias você está falando Paulinha?
--Deixe-me continuar a história, Churumela! E você também preste atenção , Paulinha, pois  não conhece todos os detalhes dela. Durante anos, Laila visitou terras perigosas e enfrentou guerreiros muito perigosos. Todos se rendiam às demonstrações de seus poderes, envolvendo os quatro elementos e às suas palavras pacíficas e cheias de ternura, capazes de quebrar cabeças de pedras e derreter corações de gelo. Muitos homens e mulheres morreram em batalhas sangrentas contra o despotismo e intolerância dos quatro reis, defendendo os princípios de igualdade e fraternidade difundidos pela jovem princesa.
Não se sabe ao certo quando foi exatamente que Laila fundou um novo reino: Bakía, o reino dos espelhos. Ela ordenou que aqueles que não aceitassem viver em harmonia seriam exilados para um novo mundo: o mundo Opaco. A Lizka prometeu que, um dia, esse novo mundo seria igual à Bakía pois a névoa do egoísmo e do orgulho não é eterna. Além disso, estabeleceu que cada um de Bakía e dos quatro Reinos teriam seu próprio espelho à medida que despertassem dentro deles sentimentos e ideais nobres.
--Trata-se do espelho que carregamos dentro de nós quando somos batizados pelas Princhis?—perguntei.
--Sim, princesa! É em nossos espelhos que a nossa consciência nos é revelada de forma clara para nos guiar nas decisões e atitudes mais justas e sensatas.
No dia do armistício de paz, quando os grandes reis  juraram obediência e lealdade à Lizka, Laila reuniu os espelhos mais puros e bondosos, daqueles que deram suas vidas por não concordarem com o despotismo e arbitrariedades dos quatro grandes reis, e com a ajuda das Princhis, foi feito o amuleto de Belizar, que hoje está guardado dentro de você, Churumela. Laila deu ao povo a esperança de que tempos de paz e harmonia estavam por vir.

Para mim, era impossível ouvir falar do amuleto e não lembrar de Kristian. Um fio de tristeza apertou meu peito. Sr. Astróbilo percebeu e tratou de cortá-lo.

--Churumela, posso continuar?
--Sim, por favor, continue!
---Muito bem,continuar sempre. Não se esqueça disso!—Falou com olhos fixos nos meus.
Não entendi o que ele quis dizer, talvez fosse alguma charada de Saikó, sei lá. Ow mania dessa casta de falar coisas cheias de lições e sentidos.
--Bem...Os novos reis dos Firenos, Terrenos, Marenos e Arenos, como prova de lealdade à Bakía e obediência à política de paz, ofereceram à Lizka as suas mais perigosas armas. O rei dos Terrenos levou uma ampulheta. O rei dos Firenos, por sua vez, deu-lhe o fogo sagrado. O rei dos Arenos lhe deu uma partitura. E por último, o rei Mareno trouxe a estrela azul em forma de pedra que caiu no mar no momento do nascimento da princesa.
-- Essa estrela, Sr. Astróbilo, onde ela está?--- perguntei já sabendo antecipadamente a resposta.

--Não a reconhece em seu dedo, princesa?

CONTINUA....

quarta-feira, 14 de maio de 2014

CAP.10 O QUE VOCÊ FEZ, CHURUMELA?



Chovia. O céu chorava as tormentas do mar.
Gustavo nos ofereceu uma carona até o casarão amarelo do Sr. Astróbilo. De início, Paulinha relutou em aceitar sua ajuda, preocupada, principalmente, na preservação de minha identidade e dos segredos de Bakía.
Porém,mediante a tempestade e a urgência de falar com Sr. Astróbilo, aceitamos a carona de Gustavo e entramos no carro. Xadrez, todo enxerido, assumiu o banco da frente. Ele ficava o tempo inteiro encarando Gustavo com um olhar desconfiado.  Algo me dizia que Xadrez não ia com a cara do bonitão. Ciúmes? Despeito? Hum...estranho...Mas o que não é estranho no meu cão? Ele cheira a maçã, já te contei.
Eu e Paulinha ficamos no banco de trás sussurando um diálogo que sempre segue o mesmo roteiro: Eu faço as perguntas, ela me dá respostas vagas e eu fico sem entender nada.
--Os olhos deles são diferentes, Chu!
--Que importância isso tem, Paulinha? Os meus também são ou você encontrou mais alguém com olhos violeta por aí? Se bem que há as lentes de contatos, então tudo é possível. Moda é uma coisa muito estranha né? Você acredita que outro dia eu vi um cara com olho de gato ...
--Você não está entendendo, Churumela--interrompeu Paulinha tapando minha boca com as mãos-- Os olhos dele não são opacos como os das pessoas daqui. Será que você não percebeu?
--O que você está insinuando?--perguntei quando ela tirou minha mordaça.
--Por enquanto nada! Mas vou ficar de olho.
--No olho dele?--ironizei.
--Engraçadinha.
Paulinha fez sinal para que terminasse nosso sussurro, cochicho ou fofoca, se assim preferir chamar. E então um quinto passageiro entrou no carro: O silêncio. De vez em quando, os meus olhos encontravam os de Gustavo no retrovisor. Paulinha tinha razão. Os olhos dele não eram opacos. Eles refletiam um mistério que cada vez mais me atraía. Por alguns instantes, Xadrez parecia hipnotizado pelo para-brisa, que de tanto arrastar água de um lado pra o outro arrancava do vidro gemidos, mas logo ele voltava a vigiar cada movimento de Gustavo.
A casa de Gustavo não ficava longe do casarão amarelo. Em poucos minutos, avistamos os muros que cercavam o segundo jardim mais lindo que já vi. O primeiro estava em Bakía, no castelo Largus.
--Pelo caminho que me ensinaram, acho que chegamos!-avisou Gustavo, quebrando o repouso das palavras.
O portão automático se abriu diante de nós.
Sr. Astróbilo já estava nos esperando. Nada escapa a um Saikó!
Ao atravessarmos o jardim, meus olhos procuraram por ela: a acácia amarela. Todos os domingos quando visito o casarão, fico alguns minutos contemplando a árvore e a orquídea incrustrada em seu tronco e assim sinto meus pais e Bakía mais perto de mim. Plantei a minha acácia ao lado daquela que pertenceu a minha mãe assim que retornei de Bakía. Em três dias , ela já era uma árvore adulta. A muda que as Princhis me ofereceram devia ter alguma espécie de fermento mágico.
--Xadreeeeeez!--Gritei com raiva.
Estava diante da pequena escadaria da entrada do casarão quando pisei na poça de  xixi morno de Xadrez. O mijão correu para o jardim, fugindo do meu puxão de rabo e orelhas. Não entendo esse cachorro, leitor! Foge do banho como um porco, cava buraco como uma toupeira, gruda em mim como um carrapato e tem a esperteza de um gato. Não sei se Xadrez precisa de veterinário,terapia ou educação.
--Boa noite, Joaquim!--cumprimentamos eu e Paulinha.
--Boa noite!--disse Gustavo com timidez e evitando encarar o criado.
--Boa noite, senhoritas! Boa noite senhor! Vejo que estão molhados! Entrem e se aqueçam. Vou buscar algumas toalhas!
Entramos no casarão, seguindo os passos do mordomo de filme inglês. Logo depois, Joaquim nos trouxe três toalhas que só encontraram quatro mãos.
--Paulinha, onde está Gustavo?--perguntei apreensiva.
--Ué! Ele vinha atrás de você!
Corri até o jardim, mas era tarde! Vi com olhos míopes o carro de Gustavo atravessar o portão e se perder na escuridão.
--Esse seu amigo é muito estranho, Chu! Tem alguma coisa errada com ele. Eu ainda vou descobrir o que é.
--Deve ter algo de errado é comigo, Paulinha! Eu só atraio cara complicado e confusão!
Joaquim avisou que o Sr. Astróbilo nos esperava na biblioteca. Assim que voltamos à sala, avistei as pegadas das patas de Xadrez, sujas de terra, sobre o piso de mármore branco.
O mijão passou por aqui.
Na biblioteca,  entre estantes de livros, pinturas e esculturas, o velho Saikó assistia preocupado ao noticiário da noite. O apresentador, um jovem magrelo, todo engravatado e de cabeça de pirulito( nunca vi um cabelo tão lambido) informava os expectadores sobre os acontecimentos da noite:

Depois de dias de elevadas temperaturas que fez secar , rapidamente, campos e reservatórios de água doce de todo o planeta, as chuvas dessa noite protagonizaram cenas de terror e desespero, dignas de Hitchcock. Tsunamis invadiram diversas países da Ásia, Europa e Oceania. Cogita-se que alguns deles tenham desaparecido do mapa para sempre. Milhares de cidades foram inundadas por rios, cujos leitos estavam secos há meses. Ainda não se pode estimar o número de desabrigados e mortos nem os prejuízos econômicos implicados. Os metereologistas não sabem explicar a origem do fenômeno. Curiosamente, o temporal começou pouco tempo depois do surgimento das estrelas azuis. Convidamos um astrônomo aqui no estúdio para nos esclarecer sobre essas estrelas.
--Boa noite, Doutor! Afinal, existem estrelas  azuis?
--Sim! As estrelas azuis são raras e extremamente luminosas. Suas temperaturas são tão altas que parte de sua energia é emitida através de radiação ultravioleta, invisível para os nossos olhos.
--Então não há motivos para preocupação?
--Não posso afirmar isso. As estrelas que vemos essa noite não são azuis, elas ficaram azuis. Nunca vi nada assim descrito na literatura.
--O senhor acha que isso tem alguma coisa a ver com a tempestade?
--Não sei. Não sei.
--Muito obrigado por seus esclarecimentos, Doutor! E dentro de instantes, voltaremos com mais notícias sobre o fenômeno apelidado como a tempestade azul.

Sr. Astróbilo levantou da cadeira a passos lentos, desligou a televisão e com sua voz mansa e olhos cansados fez a única pergunta que eu temia responder:

--O que você fez Churumela?

CONTINUA....

segunda-feira, 12 de maio de 2014

CAP.09 ONDE HÁ FUMAÇA, HÁ FOGO



A chuva furiosa  rasgava a noite, que gritava ao som de trovões. Relâmpagos roubavam a escuridão do quarto, mas logo a devolvia a nossos olhos. Um silêncio sepulcral invadiu a casa, matando as palavras e nomeando o medo seu coveiro, que  tratou de enterrá-las em algum lugar onde eu não as pudesse achar. Em resumo e sem churumelas, de repente, caiu uma baita tempestade,leitor.
--Churumela, fale alguma coisa!--Disse Paulinha angustiada.
Ao ouvir o nome Melina, imediatamente meus olhos se fixaram na imagem da mulher ruiva, de olhos de abismo e sorriso malicioso, tatuada na lembrança do nosso encontro na Delícias da Carne.
Uma corrente de ar assobiou pelas janelas do quarto, flertando minha atenção e me despertando do estado de pânico que me invadiu.
--Paulinha, o que está havendo? Vejo medo em seus olhos.
--E eu não vejo nada! LAMITI AZI!
Dois pontos de luz azul furaram a escuridão como agulhas, guiando  nossos caminhos até a escadaria. Não precisava da luz azul para enxergar. Segundo Sr. Astróbilo me ensinara em uma de suas aulas, os olhos violetas são capazes de distinguir sombras na escuridão. A única luz de que precisam é a que vem dentro de mim e não são poucas as vezes que a minha insegurança, falta de fé e covardia conseguem apagá-la.
--Churumela, será que as explicações podem ficar para depois? Preciso tirá-la dessa casa.
Mesmo contrariada, assenti.
Descemos com pés de bailarinas os degraus de madeira como se fossem de cristal. Chegamos até a sala. E aí vem a surpresa: Estava vazia com a porta e as janelas abertas. Alguns biscoitos jaziam sobre o chão de madeira esfarelados. Imaginei que os demais já assistiam sua missa de sétimo dia no estômago de Gui. Uma xícara caída de chocolate quente aquecia as lendas mortas descritas nos papéis sobre a mesa de centro. Línguas de fogo, vindas da lareira ( que não estava acesa, quando subimos ao quarto de Gustavo), lambiam a noite que se hospedou na casa. Era possível sentir o gosto da tensão no ar. Horrível, por sinal. Não havia vestígios dos meus amigos. Por instinto ou por uma razão que ainda não me era consciente, me aproximei do quadro das pegadas. Fiquei admirando a obra de arte, imóvel, com o olhar congelado e sem expressão.
--Churumela, isso é hora de apreciar quadro? Vamos embora daqui!
Paulinha me puxou pelo braço e a passos de maratonista se dirigiu à porta.
Já estávamos no terraço da casa de madeira, quando uma vontade incontrolável de voltar à sala  me imobilizou. A chuva erguia paredes transparentes entre o telhado e o chão arenoso do jardim.
--O que foi, Chu? Empacou de novo?
--Preciso voltar. E você está me saindo uma Princhi muito medrosa, Paulinha. Não se preocupe pois Melina não está aqui.
--Como sabe?
--Se quisesse me fazer algum mal, já o teria feito.
--Churumela, o que você ainda não me contou?
Ainda pensei por longos cinco segundos se deveria contar a verdade ou omitir. Escolhi a primeira opção por pura falta de criatividade que me exigia a segunda.
--Ela me visitou no Delícias da Carne hoje mais cedo. Tivemos um breve diálogo.
--O que conversaram?
--Acho que nossos olhos falaram mais do que os lábios. Ela ficou surpresa quando viu o anel e...--titubeei, pensando nos custos e benefícios de completar a frase.
--E o quê? Fala, Churumela!
Constatei que me custava muito esconder alguma coisa de Paulinha.
--E comentou algo sobre a lenda de Hayo.
--O que ela disse exatamente?
--Só isso!
--Só isso?--Perguntou Paulinha desconfiada.
--Só! Paulinha, tem alguma coisa naquela sala ,que deixei passar. Preciso voltar lá.
--Eu vou com você. Não sou medrosa como pensa.
--É claro que não, amiga!--disse em alto e bom tom --Só um pouquinho--completei baixinho.
Entramos novamente na sala escura e fotografei cada ângulo e parede à procura da assinatura de Melina.
Ela esteve aqui. Deve ter deixado algo pra mim. Mas onde será que está?
Já estávamos há dez minutos procurando alguma pista deixada por Melina , quando ouvi a madeira do terraço ranger sob dois pés e quatro patas. Eu e Paulinha tivemos um susto quando vimos duas silhuetas cortarem a escuridão, paradas na entrada da sala. Bastou um latido pra saber de quem se tratava.
--Xadrez? Gustavo? Onde vocês estavam? Cadê Guilherme e Gisela?
--KAZING!—falou Paulinha baixinho e rapidamente as luzes azuis desapareceram.
--Ué? Não estão aqui?--Perguntou Gustavo surpreso, deixando cair sobre o sofá duas sacolas de supermercado e ligando a lanterna do celular.
--Não!--Respondemos eu e Paulinha em uníssono.
--Que estranho! Eu e Xadrez saímos um pouco depois de vocês subirem  pra comprar mais biscoitos e chocolate pois Guilherme já havia devorado quase toda minha dispensa. E quando voltei, vi a casa às escuras. A rua está toda iluminada. Acho que o circuito da casa está velho e precisa de ....
--Gustavo, Guilherme e Gisela desapareceram--interrompeu Paulinha.
--O quê?!--Perguntou Gustavo transtornado.
Inexplicavelmente, as luzes amarelas da casa reascenderam .
-- Eles podem ter deixado algum recado . Vou procurar lá em cima – disse Gustavo.
--Churumela, veja o que tem aqui!--Gritou Paulinha, apontando pra uma prateleira, que ficava acima da lareira, onde havia uma pequena caixa de madeira escura, que cabia na palma da mão, em cuja tampa estava entalhada a figura de um olho de pálpebras fechadas.
--O símbolo das Princhis da Floresta Negra. Churumela, não abra!
Não obedeci à rogativa de Paulinha. Abri a caixinha e dentro dela havia um pedaço da noite em pó, mas sem estrelas. O vento entrou sorrateiro por uma das janelas carregando o pó negro de minhas mãos até às línguas de fogo, que o tragaram com desespero exalando uma fumaça cinzenta, que se espalhou na sala, formando palavras no ar.

 Lizka, se quiser ver seus amigos de volta, me encontre amanhã às 23h no teatro municipal. Vá sozinha!
Melina


É leitor....Melina me mostrou a fumaça. Precisava ir atrás do fogo. E descobrir a verdade era o único jeito de não me queimar.

CONTINUA....

sexta-feira, 9 de maio de 2014

CAP.8 PINTANDO ESTRELAS



A noite quente transpirava. Depois de dias sem chuvas, as primeiras gotas de água desenharam cortinas nas janelas. Sob meu olhar curioso, Guilherme continuou a explicação.
--Segundo a lenda, a pedra filosofal foi criada por alquimistas com dois objetivos: A transmutação e a imortalidade da alma. Ela é capaz de tranformar qualquer metal em ouro e de produzir o elixir da longa vida, uma bebida que torna imortal aquele que a bebe. É tudo que sei a respeito. Vários livros e filmes foram criados em torno dessa história.
--Há alguma descrição de como ela seria?
--Ah, Chu...ela já foi descrita de mil formas diferentes.
Gustavo parecia nervoso com as explicações de Guilherme. Não parava de olhar o anel em meu dedo.
--Por que a curiosidade ,Chu ? É só uma lenda! Essa pedra não existe. Ainda bem! Imagine só! Aquele que a possuir teria o poder de um deus!--falou Guilherme.
Ou de uma deusa—pensei enquanto olhava  para o anel enfeitiçada por seu mistério e beleza.
--Que tal mudarmos um pouco de assunto?-- sugeriu Gustavo com certa inquietação.
Três batidas pausadas na porta de madeira ecoaram no silêncio da sala.
--Está esperando mais alguém, Gustavo?--perguntou Gigi destilando seu ciúme.
--Não! Não costumo receber visitas! Talvez tenha sido o barulho do vento.
Dessa vez, seis batidas rápidas na porta de madeira ecoaram na tensão da sala.
--Acho que o vento está com pressa de entrar, Gustavo.--ironizou Gui.
Finalmente, pra resolver o mistério, bastaram três latidos.
--É o Xadrez, meu cachorro! Gustavo, abra a porta!Depressa!--ordenei apressada.
Gisela se escondeu atrás de Gustavo cheia de segundas intenções. Gui encheu a boca de biscoitos pra alimentar a ansiedade que devorava seu estômago ( notou alguma semelhança dele com minha amiga Paulinha?). A mim, restou abrir a porta para que a curiosidade saísse e entrasse a surpresa ao ver um rosto e um focinho bem familiares aos meus olhos esquisitos.
--Xadrez?Paulinha? O que fazem aqui?
Xadrez pulou em cima de mim, cheirou um por um todos na sala, demorando um pouco mais em Gigi. Logo em seguida, deu uma bela mijada nos seus sapatos camocim pretos, comprados em uma recente viagem a Paris. Foi a primeira vez que senti orgulho dos maus modos de Xadrez. Depois de seu quente e molhado espetáculo de apresentação, ele se ocupou de explorar cada cômodo da casa farejando o cheiro de  segredos ( e de comida, claro).
--Churumela, você está bem?--perguntou Paulinha, toda molhada,me dando um abraço bem forte e examinando com  olhos cirúrgicos cada parte de meu corpo.
--E por que não estaria? Como chegou até aqui? Eu não lhe dei o endereço dessa casa.
--Xadrez reconhece seu cheiro a qualquer distância, tá lembrada?--disse Paulinha baixinho em meu ouvido.
--Churumela, não vai nos apresentar a sua amiga?--perguntou Gisela cravando seu olhar de réptil em Paulinha.

Ah, leitor! Acabei de lembrar que não te falei como conheci a cobra Gigi.Vamos lá... Antes de estudarmos juntas, Gisela frequentava a academia Ritmos de Dona Margarida. Sempre foi muito invejosa. Nas apresentações de dança, disputava as posições de destaque e suas intrigas e fofocas já causaram muita confusão seja nas salas de dança. Dois anos depois, ela se matriculou no meu colégio e desde então estudamos juntas. Como ela é ? Escamosa, fria e úmida! Brincadeirinha. Ela até é bonitinha, tenho que admitir. Tem cabelos negros, esbelta, branquela, estatura mediana, olhos caramelados, pequenos e puxadinhos. A sua família tem ascendência japonesa. Mas do modo respeitoso e educado dos japinhas, Gigi não aprendeu nadinha. Ela sempre usa um colar de pérolas brancas e negras, herança de sua avó, que ganhou quando completou quinze anos. Agora chega de falar da naja, vamos à história!
--Paulinha, entre e fique à vontade! Eu sou Gustavo, o dono da casa e estes são Guilherme e Amanda. Nós estávamos conversando sobre lendas. Temos um trabalho para apresentar na escola e você chegou bem no meio da discussão.---falou Gustavo como bom anfitrião.
--Eu agradeço a hospitalidade, mas eu e Churumela já estamos de saída.--Disse Paulinha me puxando pelo braço. Ela estava nervosa.
--Paulinha, o que está acontecendo?
--Churumela, eu explico mais tarde. Mas agora temos que ir ao casarão amarelo.
--Gustavo, onde posso conversar a sós com minha amiga?
--Pode conversar no meu quarto lá em cima. É o primeiro à esquerda. Tem toalhas secas e...
--Obrigada! Será só por alguns minutos. Paulinha, vamos!
--Churumela...
--Paulinha!
--Enquanto isso, iremos prosseguir a reunião sem você!--falou Gigi  não disfarçando o prazer que sentia em me excluir, mas não dei importância.
Eu e Paulinha subimos a escadaria e  nos deparamos com um corredor. Entramos na primeira porta à esquerda, tal como havia orientado Gustavo. O quarto dele parecia um imenso aquário. Quadros com imagens de praias, peixes e mar decoravam as paredes. A cama era feita daqueles colchões d´água que nos fazem lembrar dos pula-pulas da infância, uma época não tão distante assim. Havia conchas de todos os tipos e tamanhos penduradas em prateleiras que faziam companhia  a embarcações talhadas em madeira e outras contidas em pequenas garrafas de vidro.
--Paulinha, você quer me dizer por que está tão inquieta?
--Chu, você está em perigo!
--Já me disse isso. Que tal pularmos para parte que você explica por que estou em perigo?
--O anel....
--Certo! O que tem o anel?
--Eu estava indo pra casa quando vi a luz azul no céu. Churumela, a luz partiu do anel, não foi?
--Sim, como você sabe?
--Eu não sou a pessoa mais indicada pra te explicar. Vamos ao casarão e o Sr. Astróbilo lhe contará tudo.
--Paulinha, eu não saio daqui enquanto não disser o que sabe.
--Você quando cisma é uma mula mesmo, hein?
--E acabo de empacar! Comece!
Paulinha sentou na cama, tomou um pouco de ar e começou a breve explicação.
--A luz azul é a luz dos viajantes perdidos. Deve estar lembrada dela pois há um pequeno ponto de luz em sua cabeceira de cama no castelo Largus e a usamos para iluminar nosso caminho quando estivemos na Floresta Negra.
--Sim, é claro que me lembro! Ela literalmente não saia de minha cabeça.
--Pois bem! Agora venha até a janela.
Aproximei-me da janela e tomei um susto com a arte pintada no céu. Entre estrelas brancas, havia muitas estrelas azuis, nunca vistas no mundo Opaco.
--Foi o anel que fez isso?
--Só há uma pedra em todos os mundos capaz de tornar as estrelas azuis tal como diz a primeira profecia.
--Profecia? Do que você está falando ,Paulinha? Isso tá parecendo papo de bruxa!
De repente, todas as luzes da casa se apagaram.
--O que foi isso?--perguntei assustada.
--Churumela, ela está aqui!
--Ela quem, Paulinha?
--Melina!

CONTINUA.....

terça-feira, 6 de maio de 2014

CAP. 07 SERÁ??



Com as pernas cambaleantes e as mãos trêmulas, cheguei à casa da praia. Mas não tive coragem de entrar. Contemplei, por alguns instantes, o  muro de pedra caverna que a rodeava e o grande portão de madeira, que guardava sua entrada, tão perto de meus olhos, mas longe de meus passos. Caminhei em direção ao mar onde minha consciência agonizava afogada na culpa. Ainda podia ver o pó gelado que impregnou meu corpo e cabelos com a ventania.
A tatuagem do meu crime. Aquele ladrão desapareceu por minha causa! O que foi que fiz?
Senti uma vontade incontrolável de tornar o mar meu cúmplice. Precisava me livrar do anel bruxo, do anel maldito!
Deixei a mochila na areia e entrei no mar com o olhar fixo na lembrança do ladrão tocando o anel. As águas estavam agitadas e frias. Não percebi o quanto tinha adentrado até meus pés não encontrarem o chão e meus pulmões , o ar.
--Socorro!Socorro! ---Gritei para apenas o silêncio da noite ouvir.
Apesar de ter sido uma excelente aluna de natação, nos tempos de clube, uma corrente de água  me puxou para o fundo e as ondas, cada vez maiores e mal-humoradas, impediram meu retorno à praia.
Que ironia! Eu só queria lavar minha alma, mas o mar queria levá-la.
Enquanto afundava, olhei pra o anel. Um intenso feixe de luz azul partiu de seu centro em direção ao céu.
Perdi os sentidos com o abraço do mar. E só os recuperei com o beijo de Gustavo.
--O que você está fazendo?--Perguntei irritada.
--Chama-se respiração boca-a-boca.Você quase se afogou. Posso saber o que estava tentando fazer?
Respirei fundo várias vezes pra que o ar aquecesse meus pulmões e meus neurônios também. Precisava de uma desculpa!
--A noite está muito quente! Quis me refrescar um pouco e não percebi o quanto estava longe da praia. Depois veio uma corrente de água e as ondas ....Ah! Chega! Estou bem! Isso é o que importa! E graças a você! Obrigada!
Dava pra perceber que Gustavo não havia acreditado em uma palavra sequer desse meu discurso inventado. Mas ele não me fez mais perguntas.
--Vamos entrar, Churumela! Gigi e Guilherme estão nos esperando lá dentro.
--Espera, Gustavo! Preciso falar com você sobre o anel e aquela história maluca de casamento.
--Vai terminar pegando um resfriado! Está toda molhada! Podemos conversar lá dentro?
Gustavo não esperou pela resposta. Tomou-me nos braços e me levou até a casa.
--Eu não estou aleijada das pernas!
--Mas está do juízo! Você é louquinha, Churumela!
--E você é o senhor sensatez!
--Acho que por isso vai dar certo!
--Dar certo o quê?
--Eu e você.
--Acredita mesmo que vamos casar?
--Tenho paciência.
--Eu não tenho!
--Eu sei! Eu sei tudo sobre você, princesa.
Ai,ai,ai, leitor! Senti um arrepio na espinha quando ele disse isso. Estranho....Muuuuito estranho!
Gustavo havia deixado o portão aberto quando se aventurou no mar pra me salvar. Atravessamos um terreno de areia e pedras , que apesar de hostil, abrigava uma grande, frondosa e solitária acácia amarela.
Quando chegamos à casa, Gisela e Gui nos esperavam na entrada. Gustavo me pôs de pé no chão e quase fui derrubada pela inveja e ciúme de Gisela, também conhecida como Gigi, esqueci de te contar.
--Estava tentando chamar a atenção de Gustavo, Churumela?
--Não preciso! Ela já me pertence, Gigi!--provoquei.
Gisela me pulverizou com os olhos, tal como minhas palavras fizeram com seu orgulho. Gustavo, percebendo o clima de tensão que começava a se formar, nos convidou a entrar. A casa era linda como eu imaginava.
Tinha um largo terraço de madeira na frente com um rede que balançava mistério e solidão. As portas e janelas eram de madeira maciça e talhadas com curvas semelhantes a ondas. A sala era enorme e tinha uma lareira em uma das paredes, que a tornava ainda mais aconchegante. O teto, o piso, as paredes e a escada, que ficava no centro da sala, eram feitos de madeira envernizada, muito bonita. Os móveis eram simples, sem muitos adornos. Chamou minha atenção um dos vários quadros de mar expostos nas paredes: Retratava uma grande onda que ia de encontro à praia e dois tipos de pegadas que seguiam em direção ao mar. Não havia pessoas. Apenas o mar, a areia e as pegadas. O quadro me provocava um misto de inquietação e paz! Ele me parecia, sei lá, meio familiar.
Gustavo  trouxe um casaco e calça de algodão para me vestir. Tomei um banho demorado com a esperança de que a confusão daquela noite fosse embora ,junto com a areia e sal da praia pelo ralo. Quando me vi no espelho, não pude deixar de mangar de mim mesma: parecia um saco de batata, de tão folgadas que as roupas ficaram em mim. Tentei ficar o mais apresentável possível e me juntei aos demais na sala.
Xícaras de chocolate quente e alguns biscoitos de manteiga, na mesa de centro,  disputavam espaço com computadores e resmas de papéis de pesquisa trazidos pelos meus colegas de grupo. Sentei perto de Gui e logo depois começou a reunião com uma mordida venenosa de Gisela dirigida a mim, é claro.
--Bem, acho que finalmente podemos começar depois de uma hora de atraso.
--Quero pedir desculpas a todos. Não foi minha intenção. Eu...
--Não precisa, Churumela! Você está bem?
--Estou sim! Obrigado por perguntar, Gui.
Guilherme é um fofo e merece algumas linhas de descrição. Estudamos juntos, há anos, desde a alfabetização, eu acho. Mas só nos tornamos amigos quando meu pai morreu. Gui  me deu a maior força nas tarefas de casa e nos trabalhos durante meu período de luto. Ele ia ao meu apartamento quase todos os dias para explicar as lições e nunca usou sua super inteligência como desculpa para arrogância. Não é bonito nem feio. Acho ele normal. Quer dizer, normal? Não! Ninguém com uma inteligência como a dele pode ser normal. Parece que ele carrega um pendrive na cabeça. Tem cabelos de cachinhos , ruivos, e usa um óculos redondo que esconde seus olhos grandes e verdes. É magrelo, alto e meio desengonçado. Bem...se não é bonito nem feio nem normal...só sobrou estranho. Isso! É isso! Gui é estranho , mas um estranho tão fofo que vira normal na escala da beleza! Eu me enrolei muito ou deu pra entender o que quis dizer?
--Depois de seus olhos virarem dois holofotes violetas, agora deu pra querer visitar as profundezas do mar? Lá é bem escuro, talvez seus olhos tenham alguma serventia.
--Já chega, Gisela! ---gritou Gustavo estranhamente alterado--Combinamos de não tocar nesse assunto. Já expliquei que o que houve ontem, não foi nada demais. Olhos violetas são raros e em contato com o sol refletem um brilho diferente.
--Na verdade, Gustavo, não vi isso em livro nenhum. Não há respaldo científico pra essa explicação, inclusive, andei pesquisando ....
--Por favor, Gui!--pediu, educadamente, Gustavo.
--Está bem. Vamos deixar isso pra lá. Inclusive o incidente de hoje. Ouviu Gigi?
--Sim!--Respondeu a chata, a contragosto.
Observei todo o empenho de Gustavo em me proteger sem dizer nenhuma palavra. Era estranho o quanto se importava comigo.
--Eu fiz um apanhado sobre lendas folclóricas brasileiras. Poderíamos escolher essa vertente de trabalho. Selecionaríamos algumas pra contar, detalhando os significados contidos nas histórias, as suas origens, as diferentes versões etc.O que acham?—perguntou Gisela olhando Gustavo e Guilherme com curiosidade. Para mim, dedicou sua indiferença, mais uma vez, é claro.
--Acho que é uma excelente ideia, Gisela!--enalteceu Guilherme com a boca cheia de biscoitos, cujo pote sua gula não cansava de visitar.
--E quanto a você, Churumela? O que trouxe pra nós?
--Peço desculpas de novo, gente! Mas esqueci completamente da reunião. Ontem tive que hospedar uma velha amiga, hoje trabalhei o dia inteiro e ainda aconteceram coisas que....-- parei antes que as palavras  traíssem meus segredos.
Gisela , com o dedo em riste, se preparava pra me alvejar com todas as reclamações e humilhações de seu arsenal de palavras envenenadas e belicosas , quando Guilherme se adiantou.
--Haverá outros encontros, Chu. Suas razões são fortes. Não precisa pedir desculpas. Ninguém aqui irá culpá-la de nada. Ninguém!--falou olhando fixamente pra Gisela.
--Obrigada!--falei baixinho em seu ouvido.
Ele me ofereceu uma piscadela.
--E o que trouxe pra nós, Guilherme?--perguntou Gisela,a pedante.
--Bem, eu acho que poderíamos falar sobre lendas universais famosas, consagradas por filmes, livros e extenuamente discutidas ao longo da história.
--Gostei da ideia, Gui!--disse Gustavo, que não tirava os olhos de mim.
--Eu também!-- resolvi finalmente falar em defesa do meu defensor da noite.
Gigi ficou encolerizada com a aprovação do grupo à ideia de Guilherme.
--Irão preferia a ideia dele à minha?
--Não dissemos isso, Gigi. Podemos até juntar as ideias e fazer algo bem bacana. Hoje é apenas a primeira reunião. Não há razão pra se sentir preterida.--As palavras doces de Gustavo eram suficientes pra amansar qualquer um, inclusive a bruxa da Gisela. Ops, bruxa não! Porque isso seria ofender minha amiga Paulinha. Cobra é um substantivo que cabe perfeitamente a Gisela como adjetivo.
--E sobre quais lendas pesquisou?--Perguntou Gisela mais calma.
--Ah, várias!
Guilherme, entusiasmado, pegou uma pilha de papéis e começou a ler uma lista de títulos, alguns conhecidos outros nem tanto aos meus ouvidos.
--Hum...Vejamos o que tenho aqui: A lenda de Atlântida, de Robin Hood,do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda,da pedra filosofal, do...
--Espere, Guilherme!--ao escutar o último título, fui corroída por uma curiosidade ácida.
--O que foi,Churumela?
--Do que se trata essa pedra filosofal?
--É a pedra dos alquimistas. Aquela capaz de transformar qualquer metal em ouro e de produzir um elixir que confere a vida eterna.
Ao ouvir sobre a história da pedra, lâmpadas de perguntas se acenderam em minha cabeça: E se existir mesmo um anel que transforma o metal? E se a lenda estiver errada e o anel transformar o metal em gelo em vez  de ouro? E esse elixir? Por sinal, o que é um elixir, hein? Hum... essa coisa, o elixir, torna a pessoa imortal? Mas como? Não é possível! Só pode ser mesmo uma lenda! Será?!
--Churumela, acorda! Presta atenção! Parece que tá no mundo da lua—gritou o interruptor que apagou meus minutos de divagações, Gisela.
--Gui, o que é elixir? –perguntei de supetão.
--Um espécie de bebida, porção mágica. Por que, Churumela?
Olhei fixamente o anel por alguns segundos, hipnotizada por sua beleza.

--Por nada, por nada....

CONTINUA.....

domingo, 4 de maio de 2014

CAP. 6 No meio do caminho havia três pedras, três patetas



Cheguei em casa exausta e cheias de perguntas naquela noite. Paulinha dormia no quarto ao lado do meu e Xadrez veio me recepcionar à porta com seu rabo espanador, que golpeava o ar em vai-e-véns frenéticos, e com suas lambidas abundantes de saliva, que tanto me fazem lembrar de uma característica peculiar do meu chefe Peixotão. A noite estava insuportavelmente quente. Não me lembro de ter tido outra parecida nos últimos seis meses. Peguei um pouco de água na geladeira e sentei no sofá, enquanto irrigava minha garganta árida. Água se tornou uma bebida escassa e muito cara no mundo Opaco, digna de degustação.  Xadrez sentou ao meu lado e colocou a cabeça sobre meu colo me perguntando com seus olhos, grandes e espertos, os quais os meus, cansados e semicerrados, não conseguiam entender, muito menos, responder.

Estava em um grande navio cheio de velas, parecidas com aquelas embarcações antigas de filmes de piratas, mas ele estava sem tripulantes, totalmente vazio. Caminhei pelo convés e, ao me esgueirar para admirar o mar, tomei um susto: O navio se deslocava sobre um deserto de areia. Fiquei tão atordoada que não percebi que havia chegado companhia: Um homem alto, com capuz negro, se aproximou de mim. Senti cada músculo de meu corpo enrijecer. Fiquei imóvel, com o olhar fixo para o horizonte de areia e a respiração ofegante. Não pude ver o rosto do homem, mas reconheci a voz. Era Dakan!
--Achou que iria se livrar de mim, Churumela?
O seu hálito gélido em meu pescoço era tão frio quanto suas palavras em meus ouvidos.
--Eu acho que você tem um bafo pior que o da Milka!--provoquei.
--Vamos ver até quando vai resistir essa ironia arrogante quando eu acordar o exército das almas perdidas.
Dakan desapareceu na escuridão da própria sombra. Eu o procurei por todo o navio, mas ao invés do rei dos Firenos, encontrei centenas de caveiras que se levantaram das areias e atacaram o navio, munidas de espadas flamejantes contra mim.

Acordei assustada com as mãos sujas de areia e com o medo me desejando bom dia. Já era de manhã e Paulinha, que preparava o café, veio ao meu encontro.
--Chu, o que houve?--perguntou Paulinha preocupada.
--Paulinha, olhe bem pra mim e diga: O que está acontecendo em Bakía?
--Chu, eu peço que tenha um pouco mais de paciência. Logo iremos nos encontrar com o Sr. Astróbilo e ele lhe explicará tudo.
--Por que tanto mistério? Será que ainda não perderam essa mania de esconder as coisas de mim?
Peguei minha inseparável mochila azul, que carregava metade de minha vida e histórias dentro, e fui pra academia Ritmos. Bati a porta com força e raiva (não necessariamente nessa ordem) , saindo sob os protestos de Paulinha, que não me impediu. Como Dona Margarida havia ficado em Bakía, assumi as aulas na academia Ritmos, uma forma de aumentar o orçamento e de manter viva uma das poucas fontes de alegria que ainda tinha: a dança.
Era muito cedo e os alunos demorariam a chegar. Tomei um banho demorado no vestuário e preparei um café bem quente na copa da academia, cuja dispensa mantinha sempre guarnecida para os vários lanchinhos aos quais me permitia durante o dia.
A primeira aula do dia seria de ballet clássico. Coloquei minhas sapatilhas e fiz os rotineiros exercícios de aquecimento sem música. Depois sentei no meio do salão e fiquei a esperar os alunos enquanto conversava com minhas lembranças. Ao olhar minha imagem solitária na frente dos espelhos fixados à parede, recordações da dança com Kristian vieram à mente, e em seguida, lembrei de Rafael e de nossa dança no Lago Claro. Comecei então a chorar! 
A porta se abriu e eu achei que fosse mais um aluno. Enxuguei as lágrimas, me pus de pé e desenhei um sorriso tímido. Era Paulinha,vestida para dançar! E com ela veio a música também . Começamos a dançar numa harmonia, digna de meses de ensaio, que nunca aconteceram. Ao final, ofegantes e exaustas, caímos deitadas no chão de carvalho e nos olhamos em silêncio por segundos que pareceram uma eternidade.
--Ele pergunta sobre mim Paulinha?
Paulinha demorou a responder procurando o melhor eufemismo pra sua resposta.
--Depois que você foi embora, Rafael foi poucas vezes a Bakía para conversar com Kailus. Mas nunca o ouvi perguntar de você, Chu!
Como pode constatar, a resposta veio natural, sem maquiagens.
Senti suas palavras entrarem em meus ouvidos como agulhas a alinhavar todas as lembranças que guardava de Rafael e reuni-las em um nó que me desceu até à garganta. Olhei demoradamente para o anel que Gustavo me deu e pensei na proposta que havia feito. Tentei tirá-lo. Não consegui. Tentei chorar. Mas os primeiros alunos começaram a chegar. Levantei e estendi a mão a Paulinha para que fizesse o mesmo.
--Vamos, amiga! Me ajude a colocar estes alunos pra dançar!

O dia transcorreu sem grandes novidades. Primeiro, foram as aulas de ballet clássico, depois as de tango e bolero e, por último, as de salsa. Uma aluna novata torceu o tornozelo na aula de ballet , mas nada que as mãos mágicas de Paulinha não pudessem curar. Por algumas horas, esqueci das confusões e mistérios do dia anterior, do sonho com Dakan e o mais importante, da indiferença de Rafael a mim. Durante vários momentos, tive o ímpeto de comentar com Paulinha sobre a visita da Marilyn ruiva estranha e o sonho, mas preferi descobrir o que eles queriam me dizer sozinha. Afinal, era quase certo que ela não iria me responder mesmo.
Estávamos fechando a academia quando lembrei da reunião de grupo marcada na casa de Gustavo. Faltavam apenas trinta minutos pra o horário marcado .
--Paulinha, tenho um trabalho pra fazer hoje à noite na casa de um amigo.
--Agora?
--Sim! E pra variar, vou chegar atrasada! Quer ir comigo?
--Não posso, Chu. Preciso resolver umas coisas.
--Que coisas?
--Ah...já sei! Coisas secretas e que portanto não posso saber.
--Não pode saber ainda.
--Se é assim, você fecha a academia pra mim? Eu vou direto pra lá, sem passar em casa. O pior é que não pesquisei nada sobre lendas. Vou chegar lá de mãos abanando. Sabe de alguma lenda que eu possa contar, Paulinha?--perguntei com a intenção de conseguir alguma informação sobre  Hayo , nome referido por Melina Monroe.
--Não! Sinto muito, amiga! Talvez o Sr. Astróbilo possa ajudá-la amanhã.--respondeu Paulinha sem mostrar interesse pela pergunta.
--É...Talvez tenha razão. Não me espere acordada! Acho que vou chegar tarde!
--Tenha cuidado, Chu!
--Você sabe que nunca tenho, Paulinha!

Não queria chegar atrasada à reunião. Já bastava o fato de não ter pesquisado nenhum material para a discussão de grupo, razão que me renderia a noite inteira com Gisela lembrando a cada cinco minutos o quanto fui irresponsável e blábláblá. Decidi tomar um atalho pra casa de Gustavo. O caminho mais rápido era pelas ruas do Cais do Porto, onde estavam instalados muitos armazéns, que hospedavam mercadorias de várias partes do mundo que chegavam à cidade. As ruas estavam desertas e eram pouco iluminadas. Poucos postes de luz amarela , venerada por uma ciranda de mosquitos, feriam a escuridão do caminho, que tentava me engolir a cada passo. Apesar de não ser boa em matemática, pelos meus cálculos, em quinze minutos chegaria à casa de Gustavo. Entrei em um beco escuro, o atalho do atalho, para diminuir esse tempo pela metade. Péssima ideia!
--Ora, ora! Vejam, rapazes, o que temos aqui: Uma boneca de quarto visitando os ratos do porão!--disse um rapaz alto, forte, de minha idade, com um chapéu branco, estilo panamá, vestido de calça jeans e camiseta branca justa ao corpo. Tinha olhos malandros e pela recepção de boas-vindas, presumi que devia ter algum grau de instrução. Em sua companhia, havia dois homens: um deles era baixinho e mais velho, com barba por fazer, mascava chiclete o tempo todo e segurava uma barra de ferro na mão. Usava tantas correntes de ouro e prata penduradas nos punhos e pescoço, que parecia um mostruário de joalheria. O terceiro homem era grande, barrigudo e completamente careca. Estava encostado na parede, brincando de acender e apagar um isqueiro que jogava de uma mão para outra, enquanto me olhava com o desejo salivante de um caçador apreciando a caça.
De longe, podia ver a praia e a casa de Gustavo. Pena que em vez de uma pedra, encontrei três no meio do caminho.
--Tem toda razão! Mas é uma visita rápida pois a boneca aqui precisa ir àquela casa!--disse apontando pra praia , que ficava às costas dos ratos do beco.
Não sei por que, mas minhas palavras soaram engraçadas a ponto de provocar o riso entre meus " novos amigos".
--Acho que vai ficar conosco essa noite, mocinha! Estamos carentes de uma companhia tão agradável e bonita como a sua.--disse o cara do chapéu branco.
Os três patetas me cercaram e o maior deles, o careca barrigudo, prendeu meus braços às costas, impedindo qualquer tentativa de fuga.
Estava encrencada! Estava com medo! Mas o que achei pior, quando vi um dos três relógios que baixinho usava, foi que estava atrasaaaaada!
O cara de chapéu branco se aproximou de mim, tocando meus cabelos bem devagar. Parecia sentir prazer com o misto de raiva e medo contidos em meus olhos. Deslizou as mãos sobre meu rosto e ao tocar meus lábios, eu o mordi. Ah...e mordi com a força e vontade de quem quer arrancar o último fio de carne do osso de uma coxinha de galinha.
--Sua vaca estúpida!
--Olhe! Já me chamaram de mula, de anta, mas vaca é a primeira vez! Me soltem, seus idiotas!
Dei um pisão nos pés do careca e sai correndo em direção à praia ,mas o baixinho se colocou à minha frente me ameaçando com a barra de ferro nas mãos.
--Onde pensa que vai? Quero esse anel azul que tem aí! Passe ele pra cá ou esmago seus dedos até arrancá-lo!
Que agressividade! Por que os baixinhos sempre são os mais invocados, hein?
O careca me agarrou novamente e o cara de chapéu, com o polegar vermelho da mordida, me deu um tapa na cara. Senti o calor da raiva que queimava em seus dedos e do ódio que envenenava seus olhos.
--Péssima ideia, boneca! Não devia ter me tratado tão mal. Agora me passe esse anel!
Deve estar se perguntando por que a essa altura ainda não tinha usado meus super poderes de Lizka, leitor.
Porque, segundo o Sr. Astróbilo, devo evitar ao máximo usá-los no mundo Opaco pois eles mexem com o equilíbrio da natureza e isso traria sérias consequências. No mundo Opaco, não há Princhis, Mandras,Falgós ou Azuks pra consertar as estripulias que costumo fazer em Bakía. Além disso, ninguém pode descobrir sobre meus "olhos brilhantes",caso contrário, viraria cobaia de pesquisas científicas da Nasa ou atração de circo intinerante.
Por um breve momento, esqueci das orientações do Sr. Astróbilo e quando estava prestes a provocar uma ventania que varresse aqueles três ratos de perto de mim,algo inusitado aconteceu.
--Nem que eu quisesse  poderia lhe dar esse anel! Ele está colado no meu dedo!
--Deixe que eu faço esse favor pra você!--falou o baixinho, projeto de mostruário de bijouteria.
Os outros dois vilões assistiam a tudo com expectativa.
--Nãaaaaaaaao! Socooooorro! Alguém me ajude!--gritei desesperada.
O baixinho tentou tirar o anel, mas quando uma de suas pulseiras prateadas tocou a pedra azul...
--Mas o que é isso?--Perguntou assustado o cara de chapéu branco.
As joias prateadas foram congeladas e, logo em seguida, foi a vez do próprio ladrão baixinho, se tranformar em um estátua  de gelo.
--O que você fez com nosso amigo?
--Vamos nos mandar daqui!
Os dois vilões correram aos tropeços, assustados, me deixando sozinha no beco escuro com a estátua do baixinho.
Me aproximei atônita, sem compreender o que tinha acabado de acontecer. Achei que tudo pudesse ser um daqueles "sonhos reais", como os que costumo ter. Precisava tocar pra ver pois não confiava nos meus olhos.Com a mesma mão do anel, toquei a estátua gelada e, instantaneamente, ela se quebrou em milhares de pedaços.
--O que foi que eu fiz?!

Uma corrente de ar invadiu o beco, dissipando o pó de gelo que eu tinha diante de meus pés, tornando fria uma noite que começou tão escura.


CONTINUA......