"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

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sexta-feira, 25 de abril de 2014

CAP 2 16 X GUSTAVO

Gustavo me tirou da sala apressado sob os olhares curiosos da turma. Não disse uma palavra em resposta às quinhentas perguntas que lhe fiz até sair da escola. Vi meu reflexo no espelho de uma menina que retocava o batom próxima ao portão. Meus olhos estavam realmente brilhando.
Mas como não senti nada quando isso aconteceu? E como faço pra desligar esses dois refletores no meio da minha cara, hein?
Só restava conversar comigo mesma,já que Gustavo tinha perdido a língua.
--Você tá parecendo um maracujá com essa blusa amarela amassada! --Disse Gustavo,quebrando o silêncio ao entrarmos no seu carro.
O cara ficou mudo um tempão e quando abre a boca pra falar me chama de maracujá?Bom, seria pior se ele tivesse me achado um melão.
--Espero que goste de maracujá pra eu considerar isso um elogio!--Retruquei enraivecida.
Ele sorriu e continuou a dirigir calado.Olhei para o retrovisor e,para meu espanto, meus olhos não estavam mais brilhando.
Por que eles pararam de brilhar?Ih!Tem alguma coisa errada comigo!
Estava tão envolvida em meus pensamentos que não percebi quando chegamos à praia em uma parte onde quase não havia ninguém.
Gustavo abriu a porta do carro, me convidando para sair. Achei estranho ele ter me levado a esse passeio inusitado,mas controlei um pouco a minha curiosidade e não o questionei. Sabe, leitor,eu e Gustavo nos tornamos amigos muito próximos, desde que ele se mudou para o bairro. Mas nunca lhe contei nada sobre Bakía e minha identidade. Sr. Astróbilo me advertiu que ninguém no mundo Opaco poderia ter esses conhecimentos. Seria muito perigoso. E mesmo que eu contasse,no mínimo, seria tratada como louca . Gustavo sempre foi popular e simpático , ia para as festinhas da faculdade , mas não se envolvia com ninguém apesar das investidas frequentes de Gisela e da metade das garotas do curso. O motivo do seu sucesso?Simples: Ele é O gato! Eu só posso usar um artigo definido para me referir ao cara de músculos mais definidos que conheci. Gustavo tem a pele clara,cabelos pretos e lisos,que terminam um pouco acima dos ombros.É alto e alguns anos mais velho que eu ( ele alega que as constantes viagens internacionais atrasaram seus estudos).O que chama mais minha atenção são seus olhos. Acho que nunca vi iguais : A íris tem cor azul escuro e da pupila partem traços muito finos de tom azul mais claro. Achava que só meus olhos violetas eram esquisitos, e claro, os dos Magôs, que são vermelhos. Mas os de Gustavo me dão a sensação de que mar e céu se misturaram neles. Durante esses meses , ele sempre me tratou com muito cuidado e carinho. Alguns colegas de turma, dizem que ele não tira os olhos de mim. Mas nunca acreditei nisso!Ele pode ter a garota que quiser, por que ficaria justo comigo?
Gustavo mora praticamente sozinho. Como não tem irmãos e seus pais viajam constantemente, a casa fica sob seus cuidados . E que casa! Ela fica à beira-mar e é feita quase que completamente de madeira. Uma construção de primeiro andar belíssima. Achei estranho ele ter sugerido que a reunião do nosso grupo fosse em sua casa, já que desde sua mudança, nunca recebeu nenhuma visita apesar das tentativas de alguns e algumas(principalmente!)--segundo a antena de fofocas da faculdade, Gisela.
Bonito, rico, educado, popular, inteligente e solteiro. Essa frase de adjetivos define perfeitamente Gustavo e resume todas as linhas que gastei para sua descrição.
Ai, ai (suspiros)!Às vezes acho que se não fosse completamente apaixonada por Rafael,eu poderia...Humm...
--Gustavo, por que me chamou de Lizka?E por que não ficou assustado como os outros com meus....meus....olhos brilhantes.
--Eu não a chamei de Lizka. Nem sei o que isso significa. Que nome esquisito! Eu acho que você entendeu errado. Eu a chamei de linda, Churumela. Quanto a seus olhos, para mim eles estão normais. Não tenho ideia sobre o que a turma estava falando.
--Você tá louco?Todo mundo viu e eu também vi que meus olhos estavam...
--Eu queria te dar uma coisa hoje, Chu. Por isso a trouxe tão depressa e pra longe de todos---Disse Gustavo me interrompendo e tentando me enrolar.
Fiquei em silêncio por alguns instantes,olhando o mar.
--Eu costumava vir aqui com ELE. ---Falei com a voz triste e monótona, assim como são os dias longe de Rafael.
--De quem está falando?--Perguntou Gustavo curioso.
--Deixa isso pra lá! É uma longa história! Me leva pra casa? Tenho que me arrumar pra o trabalho! Senão o Peixotão vai destilar todo o veneno de sua baba em mim. Ah! E já ia esquecendo....O que quer tanto me dar longe de todo mundo?
Gustavo se aproximou do mar, que estranhamente, ficou agitado. Eu o acompanhei em seguida. Ele então tirou do bolso da calça um anel de ouro branco com uma pedra azul em forma de espiral e colocou em meu dedo anular direito.
--O que significa isso?Um noivado?--Perguntei irônica e olhando fixamente para o anel, deslumbrada com sua beleza e espantada com sua adaptação perfeita em meu dedo.
--Você sabe que dia é hoje?
--Bem...hoje começa o inverno. Sei disso porque as lojas do shopping já começaram a coleção outono/inverno e....
--Churumela!
--Ai, falei demais?!
--Este anel é único! Não existe outro igual em nenhum lugar. Por favor, quero que fique com ele.---Falou Gustavo com seriedade.
--Mas eu não entendo....Se ele é tão raro, por que está me dando?
Gustavo encurtou a distância entre meu rosto e o seu, beijou minha testa e falou baixinho em meu ouvido:
--Porque você vai se casar comigo,Churumela!
-- Hã?!


Ah, leitor, será que ninguém avisou a ele que eu só tenho dezesseis anos?

CONTINUA....

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