Gustavo me
tirou da sala apressado sob os olhares curiosos da turma. Não disse uma palavra
em resposta às quinhentas perguntas que lhe fiz até sair da escola. Vi meu
reflexo no espelho de uma menina que retocava o batom próxima ao portão. Meus
olhos estavam realmente brilhando.
Mas
como não senti nada quando isso aconteceu? E como faço pra desligar esses dois
refletores no meio da minha cara, hein?
Só restava conversar comigo
mesma,já que Gustavo tinha
perdido a língua.
--Você tá parecendo um
maracujá com essa blusa amarela amassada! --Disse Gustavo,quebrando o silêncio ao entrarmos no seu carro.
O
cara ficou mudo um tempão e quando abre a boca pra falar me chama de
maracujá?Bom, seria pior se ele tivesse me achado um melão.
--Espero que goste de
maracujá pra eu considerar isso um elogio!--Retruquei enraivecida.
Ele sorriu e continuou a dirigir calado.Olhei para o retrovisor e,para
meu espanto, meus olhos não estavam mais brilhando.
Por
que eles pararam de brilhar?Ih!Tem alguma coisa errada comigo!
Estava tão envolvida em meus
pensamentos que não percebi quando chegamos à praia em uma parte onde quase não
havia ninguém.
Gustavo
abriu a porta do carro, me convidando para sair. Achei estranho ele ter me
levado a esse passeio inusitado,mas controlei um pouco a minha curiosidade e
não o questionei. Sabe, leitor,eu e Gustavo
nos tornamos amigos muito próximos, desde que ele se mudou para o bairro. Mas
nunca lhe contei nada sobre Bakía e minha identidade. Sr. Astróbilo me advertiu
que ninguém no mundo Opaco poderia ter esses conhecimentos. Seria muito perigoso.
E mesmo que eu contasse,no mínimo, seria tratada como louca . Gustavo sempre foi popular e simpático
, ia para as festinhas da faculdade , mas não se envolvia com ninguém apesar
das investidas frequentes de Gisela e da metade das garotas do curso. O
motivo do seu sucesso?Simples: Ele é O gato! Eu só posso usar um artigo
definido para me referir ao cara de músculos mais definidos que
conheci. Gustavo tem a pele
clara,cabelos pretos e lisos,que terminam um pouco acima dos ombros.É alto e
alguns anos mais velho que eu ( ele alega que as constantes viagens
internacionais atrasaram seus estudos).O que chama mais minha atenção são seus
olhos. Acho que nunca vi iguais : A íris tem cor azul escuro e
da pupila partem traços muito finos de tom azul mais claro. Achava que só
meus olhos violetas eram esquisitos, e claro, os dos Magôs, que são vermelhos.
Mas os de Gustavo me dão a sensação
de que mar e céu se misturaram neles. Durante esses meses , ele sempre me tratou
com muito cuidado e carinho. Alguns colegas de turma, dizem que ele não
tira os olhos de mim. Mas nunca acreditei nisso!Ele pode ter a garota que
quiser, por que ficaria justo comigo?
Gustavo mora
praticamente sozinho. Como não tem irmãos e seus pais viajam constantemente, a
casa fica sob seus cuidados . E que casa! Ela fica à beira-mar e é feita
quase que completamente de madeira. Uma construção de primeiro andar belíssima.
Achei estranho ele ter sugerido que a reunião do nosso grupo fosse em sua casa,
já que desde sua mudança, nunca recebeu nenhuma visita apesar das tentativas de
alguns e algumas(principalmente!)--segundo a antena de fofocas da
faculdade, Gisela.
Bonito, rico, educado,
popular, inteligente e solteiro. Essa frase de adjetivos define perfeitamente Gustavo e resume todas as linhas que
gastei para sua descrição.
Ai, ai (suspiros)!Às vezes
acho que se não fosse completamente apaixonada por Rafael,eu poderia...Humm...
--Gustavo, por que me chamou de Lizka?E por que não ficou assustado
como os outros com meus....meus....olhos brilhantes.
--Eu não a chamei de Lizka.
Nem sei o que isso significa. Que nome esquisito! Eu acho que você entendeu
errado. Eu a chamei de linda, Churumela. Quanto a seus olhos, para mim eles
estão normais. Não tenho ideia sobre o que a turma estava falando.
--Você tá louco?Todo mundo
viu e eu também vi que meus olhos estavam...
--Eu queria te dar uma coisa
hoje, Chu. Por isso a trouxe tão depressa e pra longe de todos---Disse Gustavo me interrompendo e tentando me
enrolar.
Fiquei em silêncio por
alguns instantes,olhando o mar.
--Eu costumava vir aqui com
ELE. ---Falei com a voz triste e monótona, assim como são os dias
longe de Rafael.
--De quem está
falando?--Perguntou Gustavo curioso.
--Deixa isso pra lá! É uma
longa história! Me leva pra casa? Tenho que me arrumar pra o trabalho! Senão
o Peixotão vai destilar todo o veneno de sua baba em mim. Ah! E já ia
esquecendo....O que quer tanto me dar longe de todo mundo?
Gustavo se
aproximou do mar, que estranhamente, ficou agitado. Eu o acompanhei em seguida.
Ele então tirou do bolso da calça um anel de ouro branco com uma pedra azul em forma de espiral e colocou em
meu dedo anular direito.
--O que significa isso?Um
noivado?--Perguntei irônica e olhando fixamente para o anel, deslumbrada com
sua beleza e espantada com sua adaptação perfeita em meu dedo.
--Você sabe que dia é hoje?
--Bem...hoje começa o
inverno. Sei disso porque as lojas do shopping já começaram a coleção
outono/inverno e....
--Churumela!
--Ai, falei demais?!
--Este anel é único! Não existe outro igual em nenhum lugar. Por favor,
quero que fique com ele.---Falou Gustavo
com seriedade.
--Mas eu não entendo....Se
ele é tão raro, por que está me dando?
Gustavo
encurtou a distância entre meu rosto e o seu, beijou minha testa e falou
baixinho em meu ouvido:
--Porque você vai se casar comigo,Churumela!
-- Hã?!
Ah, leitor, será que ninguém
avisou a ele que eu só tenho dezesseis anos?
CONTINUA....
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