A chuva furiosa rasgava
a noite, que gritava ao som de trovões. Relâmpagos roubavam a escuridão do
quarto, mas logo a devolvia a nossos olhos. Um silêncio sepulcral invadiu a
casa, matando as palavras e nomeando o medo seu coveiro, que tratou
de enterrá-las em algum lugar onde eu não as pudesse achar. Em resumo e sem
churumelas, de repente, caiu uma baita tempestade,leitor.
--Churumela, fale alguma
coisa!--Disse Paulinha angustiada.
Ao ouvir o nome Melina,
imediatamente meus olhos se fixaram na imagem da mulher ruiva, de
olhos de abismo e sorriso malicioso, tatuada na lembrança do nosso encontro na
Delícias da Carne.
Uma corrente de ar assobiou
pelas janelas do quarto, flertando minha atenção e me despertando do estado de
pânico que me invadiu.
--Paulinha, o que está
havendo? Vejo medo em seus olhos.
--E eu não vejo nada! LAMITI
AZI!
Dois pontos de luz azul
furaram a escuridão como agulhas, guiando nossos caminhos até a
escadaria. Não precisava da luz azul para enxergar. Segundo Sr. Astróbilo me
ensinara em uma de suas aulas, os olhos violetas são capazes de distinguir
sombras na escuridão. A única luz de que precisam é a que vem dentro de mim e
não são poucas as vezes que a minha insegurança, falta de fé e covardia conseguem
apagá-la.
--Churumela, será que as
explicações podem ficar para depois? Preciso tirá-la dessa casa.
Mesmo contrariada, assenti.
Descemos com pés de bailarinas
os degraus de madeira como se fossem de cristal. Chegamos até a sala. E aí vem
a surpresa: Estava vazia com a porta e as janelas abertas. Alguns biscoitos jaziam
sobre o chão de madeira esfarelados. Imaginei que os demais já assistiam
sua missa de sétimo dia no estômago de Gui. Uma xícara caída de chocolate
quente aquecia as lendas mortas descritas nos papéis sobre a mesa de centro. Línguas
de fogo, vindas da lareira ( que não estava acesa, quando subimos ao quarto de
Gustavo), lambiam a noite que se hospedou na casa. Era possível
sentir o gosto da tensão no ar. Horrível, por sinal. Não havia vestígios dos
meus amigos. Por instinto ou por uma razão que ainda não me era consciente, me
aproximei do quadro das pegadas. Fiquei admirando a obra de arte, imóvel, com o
olhar congelado e sem expressão.
--Churumela, isso é hora de
apreciar quadro? Vamos embora daqui!
Paulinha me puxou pelo braço
e a passos de maratonista se dirigiu à porta.
Já estávamos no terraço
da casa de madeira, quando uma vontade incontrolável de voltar à sala
me imobilizou. A chuva erguia paredes transparentes entre o
telhado e o chão arenoso do jardim.
--O que foi, Chu? Empacou de
novo?
--Preciso voltar. E você
está me saindo uma Princhi muito medrosa, Paulinha. Não se preocupe pois Melina
não está aqui.
--Como sabe?
--Se quisesse me fazer algum
mal, já o teria feito.
--Churumela, o que você
ainda não me contou?
Ainda pensei por longos
cinco segundos se deveria contar a verdade ou omitir. Escolhi a primeira opção
por pura falta de criatividade que me exigia a segunda.
--Ela me visitou no Delícias
da Carne hoje mais cedo. Tivemos um breve diálogo.
--O que conversaram?
--Acho que nossos olhos
falaram mais do que os lábios. Ela ficou surpresa quando viu o anel
e...--titubeei, pensando nos custos e benefícios de completar a frase.
--E o quê? Fala, Churumela!
Constatei que me custava
muito esconder alguma coisa de Paulinha.
--E comentou algo sobre a
lenda de Hayo.
--O que ela disse
exatamente?
--Só isso!
--Só isso?--Perguntou
Paulinha desconfiada.
--Só! Paulinha, tem alguma
coisa naquela sala ,que deixei passar. Preciso voltar lá.
--Eu vou com você. Não sou
medrosa como pensa.
--É claro que não, amiga!--disse
em alto e bom tom --Só um pouquinho--completei baixinho.
Entramos novamente na sala
escura e fotografei cada ângulo e parede à procura da assinatura de Melina.
Ela
esteve aqui. Deve ter deixado algo pra mim. Mas onde será que está?
Já estávamos há dez
minutos procurando alguma pista deixada por Melina , quando ouvi a madeira do
terraço ranger sob dois pés e quatro patas. Eu e Paulinha tivemos um susto
quando vimos duas silhuetas cortarem a escuridão, paradas na entrada da sala. Bastou um
latido pra saber de quem se tratava.
--Xadrez? Gustavo? Onde
vocês estavam? Cadê Guilherme e Gisela?
--KAZING!—falou Paulinha
baixinho e rapidamente as luzes azuis desapareceram.
--Ué? Não estão
aqui?--Perguntou Gustavo surpreso, deixando cair sobre o sofá duas sacolas de
supermercado e ligando a lanterna do celular.
--Não!--Respondemos eu e
Paulinha em uníssono.
--Que estranho! Eu e Xadrez
saímos um pouco depois de vocês subirem pra comprar mais biscoitos e
chocolate pois Guilherme já havia devorado quase toda minha dispensa. E quando
voltei, vi a casa às escuras. A rua está toda iluminada. Acho que o circuito da
casa está velho e precisa de ....
--Gustavo, Guilherme e Gisela
desapareceram--interrompeu Paulinha.
--O quê?!--Perguntou Gustavo
transtornado.
Inexplicavelmente, as luzes
amarelas da casa reascenderam .
-- Eles podem ter deixado
algum recado . Vou procurar lá em cima – disse Gustavo.
--Churumela, veja o que tem
aqui!--Gritou Paulinha, apontando pra uma prateleira, que ficava acima da
lareira, onde havia uma pequena caixa de madeira escura, que cabia na
palma da mão, em cuja tampa estava entalhada a figura de um olho de pálpebras
fechadas.
--O símbolo das Princhis da
Floresta Negra. Churumela, não abra!
Não obedeci à rogativa de
Paulinha. Abri a caixinha e dentro dela havia um pedaço da noite em pó, mas
sem estrelas. O vento entrou sorrateiro por uma das janelas carregando o pó
negro de minhas mãos até às línguas de fogo, que o tragaram com
desespero exalando uma fumaça cinzenta, que se espalhou na sala,
formando palavras no ar.
Lizka, se quiser ver seus amigos
de volta, me encontre amanhã às 23h no teatro municipal. Vá sozinha!
Melina
É leitor....Melina me
mostrou a fumaça. Precisava ir atrás do fogo. E descobrir a verdade era o único
jeito de não me queimar.
CONTINUA....
CONTINUA....
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