"Não basta olhar, é preciso aprender a ver"

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segunda-feira, 12 de maio de 2014

CAP.09 ONDE HÁ FUMAÇA, HÁ FOGO



A chuva furiosa  rasgava a noite, que gritava ao som de trovões. Relâmpagos roubavam a escuridão do quarto, mas logo a devolvia a nossos olhos. Um silêncio sepulcral invadiu a casa, matando as palavras e nomeando o medo seu coveiro, que  tratou de enterrá-las em algum lugar onde eu não as pudesse achar. Em resumo e sem churumelas, de repente, caiu uma baita tempestade,leitor.
--Churumela, fale alguma coisa!--Disse Paulinha angustiada.
Ao ouvir o nome Melina, imediatamente meus olhos se fixaram na imagem da mulher ruiva, de olhos de abismo e sorriso malicioso, tatuada na lembrança do nosso encontro na Delícias da Carne.
Uma corrente de ar assobiou pelas janelas do quarto, flertando minha atenção e me despertando do estado de pânico que me invadiu.
--Paulinha, o que está havendo? Vejo medo em seus olhos.
--E eu não vejo nada! LAMITI AZI!
Dois pontos de luz azul furaram a escuridão como agulhas, guiando  nossos caminhos até a escadaria. Não precisava da luz azul para enxergar. Segundo Sr. Astróbilo me ensinara em uma de suas aulas, os olhos violetas são capazes de distinguir sombras na escuridão. A única luz de que precisam é a que vem dentro de mim e não são poucas as vezes que a minha insegurança, falta de fé e covardia conseguem apagá-la.
--Churumela, será que as explicações podem ficar para depois? Preciso tirá-la dessa casa.
Mesmo contrariada, assenti.
Descemos com pés de bailarinas os degraus de madeira como se fossem de cristal. Chegamos até a sala. E aí vem a surpresa: Estava vazia com a porta e as janelas abertas. Alguns biscoitos jaziam sobre o chão de madeira esfarelados. Imaginei que os demais já assistiam sua missa de sétimo dia no estômago de Gui. Uma xícara caída de chocolate quente aquecia as lendas mortas descritas nos papéis sobre a mesa de centro. Línguas de fogo, vindas da lareira ( que não estava acesa, quando subimos ao quarto de Gustavo), lambiam a noite que se hospedou na casa. Era possível sentir o gosto da tensão no ar. Horrível, por sinal. Não havia vestígios dos meus amigos. Por instinto ou por uma razão que ainda não me era consciente, me aproximei do quadro das pegadas. Fiquei admirando a obra de arte, imóvel, com o olhar congelado e sem expressão.
--Churumela, isso é hora de apreciar quadro? Vamos embora daqui!
Paulinha me puxou pelo braço e a passos de maratonista se dirigiu à porta.
Já estávamos no terraço da casa de madeira, quando uma vontade incontrolável de voltar à sala  me imobilizou. A chuva erguia paredes transparentes entre o telhado e o chão arenoso do jardim.
--O que foi, Chu? Empacou de novo?
--Preciso voltar. E você está me saindo uma Princhi muito medrosa, Paulinha. Não se preocupe pois Melina não está aqui.
--Como sabe?
--Se quisesse me fazer algum mal, já o teria feito.
--Churumela, o que você ainda não me contou?
Ainda pensei por longos cinco segundos se deveria contar a verdade ou omitir. Escolhi a primeira opção por pura falta de criatividade que me exigia a segunda.
--Ela me visitou no Delícias da Carne hoje mais cedo. Tivemos um breve diálogo.
--O que conversaram?
--Acho que nossos olhos falaram mais do que os lábios. Ela ficou surpresa quando viu o anel e...--titubeei, pensando nos custos e benefícios de completar a frase.
--E o quê? Fala, Churumela!
Constatei que me custava muito esconder alguma coisa de Paulinha.
--E comentou algo sobre a lenda de Hayo.
--O que ela disse exatamente?
--Só isso!
--Só isso?--Perguntou Paulinha desconfiada.
--Só! Paulinha, tem alguma coisa naquela sala ,que deixei passar. Preciso voltar lá.
--Eu vou com você. Não sou medrosa como pensa.
--É claro que não, amiga!--disse em alto e bom tom --Só um pouquinho--completei baixinho.
Entramos novamente na sala escura e fotografei cada ângulo e parede à procura da assinatura de Melina.
Ela esteve aqui. Deve ter deixado algo pra mim. Mas onde será que está?
Já estávamos há dez minutos procurando alguma pista deixada por Melina , quando ouvi a madeira do terraço ranger sob dois pés e quatro patas. Eu e Paulinha tivemos um susto quando vimos duas silhuetas cortarem a escuridão, paradas na entrada da sala. Bastou um latido pra saber de quem se tratava.
--Xadrez? Gustavo? Onde vocês estavam? Cadê Guilherme e Gisela?
--KAZING!—falou Paulinha baixinho e rapidamente as luzes azuis desapareceram.
--Ué? Não estão aqui?--Perguntou Gustavo surpreso, deixando cair sobre o sofá duas sacolas de supermercado e ligando a lanterna do celular.
--Não!--Respondemos eu e Paulinha em uníssono.
--Que estranho! Eu e Xadrez saímos um pouco depois de vocês subirem  pra comprar mais biscoitos e chocolate pois Guilherme já havia devorado quase toda minha dispensa. E quando voltei, vi a casa às escuras. A rua está toda iluminada. Acho que o circuito da casa está velho e precisa de ....
--Gustavo, Guilherme e Gisela desapareceram--interrompeu Paulinha.
--O quê?!--Perguntou Gustavo transtornado.
Inexplicavelmente, as luzes amarelas da casa reascenderam .
-- Eles podem ter deixado algum recado . Vou procurar lá em cima – disse Gustavo.
--Churumela, veja o que tem aqui!--Gritou Paulinha, apontando pra uma prateleira, que ficava acima da lareira, onde havia uma pequena caixa de madeira escura, que cabia na palma da mão, em cuja tampa estava entalhada a figura de um olho de pálpebras fechadas.
--O símbolo das Princhis da Floresta Negra. Churumela, não abra!
Não obedeci à rogativa de Paulinha. Abri a caixinha e dentro dela havia um pedaço da noite em pó, mas sem estrelas. O vento entrou sorrateiro por uma das janelas carregando o pó negro de minhas mãos até às línguas de fogo, que o tragaram com desespero exalando uma fumaça cinzenta, que se espalhou na sala, formando palavras no ar.

 Lizka, se quiser ver seus amigos de volta, me encontre amanhã às 23h no teatro municipal. Vá sozinha!
Melina


É leitor....Melina me mostrou a fumaça. Precisava ir atrás do fogo. E descobrir a verdade era o único jeito de não me queimar.

CONTINUA....

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